O Mercado de Carne Francisco Bolonha foi o ponto de partida para a edição do Circuitinho Circular que levou as crianças a conhecerem um pouco mais sobre o Ver-o-Peso, um dos maiores símbolos culturais de Belém, e que completará 400 anos em 2027. A programação foi realizada no último dia 2 de agosto, abrindo o Mês do Patrimônio.
Na ocasião, as famílias que participaram do programa de educação patrimonial para crianças do Circular Campina Cidade Velha puderam saber um pouco mais sobre os espaços construídos da maior feira aberta da América Latina. E ainda vivenciar um pouco dos saberes repassados de geração a geração pelos trabalhadores do lugar.
A babá Beatriz Silva já tinha participado de outras edições do Circuitinho com os filhos Allaf Matheus, 13 anos, e Antony Gabriel, 7 anos. Mas, no meio da semana agitada e com eles em sistema de ensino integral, Beatriz nunca tinha levado as crianças para passear ou fazer compras no Ver-o-Peso.
“O Allaf é surdo, estuda no Instituto Felipe Smaldone e é aluno da professora Leilane [Monteiro, intérprete de Libras que acompanha o Circuitinho]. Ela nos falou do roteiro. Eu vim trazer meus filhos porque acho muito importante para o desenvolvimento deles”, reflete.
“Às vezes tem uma atividade na escola que eles vão precisar aprender, e eles já vão saber desde o início um pouco mais sobre o lugar onde moram”, diz Beatriz, que tem suas próprias memórias no Ver-o-Peso, mas não lembrava do espaço interno do Mercado de Carne e suas estruturas de ferro.
“Eu vinha quando era pequena, com a minha avó, para comprar comida”, conta.

Memórias de infância
Moradores do bairro de Batista Campos, a antropóloga Carolina Silva e o filho Ramon Silva Lima, 8 anos, também acompanharam o roteiro. “Trabalho, estudo patrimônio e memória social, então é importante para mim trazer meu filho para entender a cidade, praticar a cidade, porque às vezes ele pergunta sobre os lugares, o que é ali, o que era…”, diz.
“Acho importante que ele entenda a identidade dele como belenense, enquanto paraense, e a importância do legado da memória do patrimônio cultural”, completa a antropóloga, contando que sempre leva Ramon para acompanhá-la ao Ver-o-Peso.
“Gosto muito de feira, é uma coisa que vem de família e continuo indo e levando o Ramon. Venho para comprar alimentos, castanhas, continuo cultuando esse hábito que acho importante”.
Para Carolina, não só o Ver-o-Peso, mas toda a área da Campina e do comércio de Belém são impregnados de lembranças. “A feira é um espaço que lembro muito da minha infância, do meu avô me trazendo aqui todo sábado. Eu falava que queria ver o mar, eu não entendia o que era esse rio imenso. A gente sentava para tomar café. Ele gostava de me levar no comércio, e falava do que ele chamava de bangalôs, que são esses casarões antigos”, recorda a antropóloga, que vai além:
“Para mim, patrimônio é a questão do afetivo. Você se reconhece. Principalmente quando você vai para outra cidade, outro estado. Você percebe o quanto sua cidade é linda, o quanto deve ser valorizada, e o quanto isso deve ser passado às novas gerações.”

Patrimonialização dos saberes culturais
Mário Lima é presidente do Instituto Ver-o-Peso, uma das entidades que representam os trabalhadores do complexo e que pleiteiam que os fazeres, saberes de quem atua na feira, a cultura imaterial que envolve toda as atividades do lugar, também sejam considerados patrimônio do Pará e do Brasil.
O tombamento federal do Ver-o-Peso realizado pelo Iphan-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1977 (Inscr. nº 69, 460 e 525) abrange o conjunto arquitetônico e paisagístico em toda a sua estrutura, desde a Feira do Açaí, os mercados de carne e peixe e a feira que compõem o complexo, que em 27 de março de 2027 completará 400 anos de fundação. Mas os saberes e fazeres dos trabalhadores não estão incluídos nessa proteção.
Um projeto de lei de autoria do deputado Carlos Bordalo (PT) ainda tramita na Assembleia Legislativa do Pará, para declarar como “Patrimônio Cultural Natureza Imaterial do Estado do Pará, as atividades, ofícios, saberes e práticas culturais, sociais e econômicas desenvolvidas no Complexo do Ver-O-Peso”. Protocolado na Casa no final de abril, o PL encontra-se, no momento, para análise na Comissão de Constituição e Justiça e de Redação Final.
O Iphan iniciou o processo de registro dos bens imateriais do Ver-o-Peso em 2008, o que está sendo retomado este ano com a parceria dos feirantes. Em maio, o órgão tinha iniciado novo processo de escuta dos trabalhadores e cadastro das entidades representativas.
“O projeto estadual está na Alepa. Mas ainda esperamos posição, que eu imagino que esteja mais parado por conta do processo eleitoral”, diz Mário Lima.
“Com relação ao Iphan, eles nos pediram abaixo-assinado com a sociedade civil, os feirantes, o que terminamos essa semana, conseguimos cerca de 800 assinaturas. E nos pediram declaração de apoio das entidades representativas dos setores do Ver-o-Peso, o que também finalizamos agora e vamos protocolar”, informa Mário Lima.

Iphan recebeu pedido de registro
Em nota à reportagem, o Iphan informa que recebeu oficialmente, na última terça-feira, 4 de agosto, o pedido de registro para o conhecimento das culturas que acontecem no Ver-o-Peso. “Agora, o pedido terá os encaminhamentos iniciais necessários”, diz a nota.
O Iphan destaca ainda que, por meio de sua Superintendência no Pará, “vem dialogando com representantes dos feirantes do Ver-o-Peso e os recebeu em diversos encontros em 2026 para esclarecimentos e apresentação do processo de registro do Iphan e seu passo a passo”.
Sobre o processo de registro, o órgão esclarece que o processo de registro de bens culturais imateriais em nível federal segue quatro etapas principais, conforme a Resolução nº 001/2006: solicitação de registro e abertura do processo; análise preliminar (etapa atual do processo); pesquisa e documentação (fase de instrução técnica); e análise final.
“O processo de registro é detalhado e envolve não apenas atividades administrativas, mas também ações de pesquisa e documentação, realizadas em parceria com instituições e com os próprios detentores do bem cultural, buscando valorizar e preservar suas práticas e saberes”, conclui a nota.
Acompanhe o andamento do projeto na Alepa
Acompanhe o processo de registro no Iphan