Reduto: lugar de muitas possibilidades

Horta Flutuante na Praça Conde Koma - iniciativa da AMABOLONHA, apoiada pelo Instituto Peabiru e movimentada num domingo de Circular - Foto: Irene Almeida/2016.

Localizado na área de entorno do primeiro núcleo de ocupação de Belém, o bairro do Reduto tem uma área e população relativamente pequenas – são apenas 57 hectares, onde vivem cerca de 6,9 mil pessoas, segundo dados do IBGE –, mas com grande importância histórica e cultural para Belém.

O bairro, que se desenvolveu às bordas do Igarapé das Almas (ou Armas — hoje canal da Visconde de Souza Franco), primeiro com uma fortificação militar, depois pela ocupação das fábricas e vilas operárias e está incluído na área de atuação do Projeto Circular Campina Cidade Velha.

Idealizadora do projeto, a galerista e produtora cultural Makiko Akao diz o projeto partiu da ideia de ocupar o Centro Histórico e entorno, mas embora o nome do projeto não contemple o Reduto, o bairro está na gênese do Circular.

“Começamos com seis espaços, dois deles estavam no Reduto, a galeria Elf e o estúdio Gotazken [ambos já encerrados], então foi natural [incluir o Reduto]. Mas o limite seria a travessa Benjamin Constant. Tínhamos, nessa rua, entre outros espaços que vieram depois, o Iacitatá, e o Instituto Peabiru, que mantinha uma horta comunitária. E tudo se concentrava até a Benjamin.” Makiko.

No projeto, a geografia fala alto, mas os entremeios também importam. São justamente esses territórios de passagem, onde um bairro encontra o outro, que ajudam a construir as conexões culturais, afetivas e urbanas que dão sentido ao circuito.

Atualmente, integrando a rede parceira do Circular, no bairro do Reduto, estão: o Bistrô Café Club e o Casarão Rádio Margarida, situados nesta zona fronteiriça, entre a Campina e o Reduto; o Espaço Vem; e os empreendimentos da Vila Prana, como a Prana Tropical, o Bem-Cafeinado, o Bolo de Cristal e o Instituto Letras que Flutuam. Também fazem parte da rede, a Casa do Fauno e a Casa Ikeuara Amazônia.

“É um bairro pequeno, com potencial para propor melhorias para a cidade e servir de modelo. Gostaria muito que o bairro fosse estudado”, diz Liane Dias, da Bem-Cafeinado.

A loja de cafés especiais e com rastreabilidade de produto existe há seis anos no bairro, no qual a empresária vê muitos pontos positivos no Reduto, uma delas é a vizinhança.

“As pessoas trocam informações para resolver problemas. Temos dois grupos de WhatsApp para trocar indicações sobre os serviços que oferecem, e outro sobre o bairro mesmo. A gente consegue se monitorar e trocar informações sobre água, energia, segurança e situações que surgem”, conta a empreendedora.

Patrimônio abandonado contrasta com a energia na rua de lazer da Vila Prana, em domingo de Circular

Senso de comunidade entre empreendimentos

Para Liane, o Circular ampliou esse sentido de “comunidade” entre os negócios do bairro. “A gente se conhece e se relaciona, e dentro do Circular mais ainda: é quase como uma identidade. ‘Eu estou no Circular e você também, então somos parceiros, somos do mesmo movimento.’ E isso é muito legal, porque o Circular tem um caráter social que é diferente.”

Lorena Coelho criou a confeitaria vegana criativa Bolo de Cristal há oito anos e, há dois anos, tem sua base na Vila Prana, funcionando para entregas e encomendas.

“Eu sempre fui apaixonada por casarões históricos e queria estar dentro do centro histórico, por isso aproveitei quando vi a oportunidade na Prana. Gosto dessa arquitetura colonial que ainda resiste. Assim como qualquer arte, a arquitetura também transmite história”, completa.

Assim como Liane, Lorena também aprecia a parceria com o Circular e a vizinhança. “Nos outros lugares em que morei, o senso de comunidade era quase zero. Aqui é muito diferente, a gente está sempre trocando, sempre compartilhando. Mas uma coisa negativa é a falta de árvores. Nunca vi um espaço tão sem árvores.”

Bistrô Café Club, na fronteira entre Campina, Nazaré e Reduto. Foto: Cláudio Ferreira

Vizinhos na avenida Governador José Malcher, à beira da Praça da República, a Rádio Margarida e o Bistrô Café representam pontas que se conectam no bairro. A ONG de educação popular, prestes a completar 35 anos, há mais de 20 ocupa um dos poucos casarões coloniais que resistem no entorno.

Já o espaço gastronômico chegou no pós-pandemia, aproveitando a oportunidade de agregar sua cozinha, com base em ingredientes saudáveis, a uma academia de ginástica já estabelecida em uma construção contemporânea. Em ambos coincide a percepção de que a centralidade traz oportunidades de movimentar os espaços. Como no último Circular, em que a Rádio Margarida teve mais de 40 pessoas assistindo à peça “Dona Árvore e o Passarinho”.

Nem tudo, porém, são flores.  A falta de maior ocupação residencial no trecho contribui para a dificuldade com a segurança pública. “Já tivemos o casarão invadido e alguns roubos. Hoje, esse é o maior problema aqui”, diz Eugênia Melo, coordenadora de programas e projetos da Rádio Margarida.

Instituto Letras que Flutuam, na Vila Prana, em domingo de Circular. Foto: divulgação

Paulista, a designer Fernanda Martins é moradora do Reduto desde que chegou a Belém, há 22 anos. Há seis meses, também passou a ocupar a Vila Prana com a sede do Instituto Letras que Flutuam, entidade que ela dirige, destinada a valorizar a arte dos abridores de letras da Amazônia, tema de sua pesquisa há duas décadas.

“Quando cheguei ao Reduto, ele tinha menos personalidade e presença coletiva. O bairro tem adquirido identidade própria, mais empreendimentos têm vindo para cá. É um lugar das pessoas que não estão no centro da cidade, mas que continuam vinculadas ao coração da cidade”, diz Fernanda, que valoriza a diversidade de serviços presente no bairro e a facilidade de fazer coisas a pé.

Hoje, com 27 associados e 170 abridores de letras mapeados, o Instituto trabalha para conectar esses artistas ao público em geral e às empresas. “Digo que somos pescadores de oportunidades”, diz a designer.

No último domingo, o instituto recebeu cerca de 120 pessoas ao longo do dia, que foram experimentar as oficinas com Idaias Dias de Freitas, artista de São Sebastião da Boa Vista, e Donielson Leal, de Muaná.  “Veio gente de Castanhal e até de Salinas. O Circular é legal porque traz um público diferente”, destaca.

A casinha do Espaço Vem – moda criativa movimenta o bairro. Foto: Cláudio Ferreira

Conexão de negócio e território

Desde a criação do Espaço Vem, em 2018, a loja colaborativa de marcas de moda autoral paraense faz parte da rede Circular. Depois da base na Cidade Velha, mudou sua casinha para o Reduto, na rua Ó de Almeida, onde, em dia de Circular, também agrega outros empreendimentos, como a Kombreja e o restaurante Mururé.

“O Reduto é um bairro muito tranquilo, gostoso de habitar. Todos os empreendimentos aqui são muito parceiros. Tem acessibilidade, é excelente para ter um comércio”, diz Nai Nandes, nome à frente do Vem.

“A história do Vem como loja sempre foi ocupar esses espaços no centro histórico. Nossa ideia sempre foi trazer o público para conhecer a cidade e o nosso trabalho”, completa.

Texto: Aline Monteiro | Edição: Luciana Medeiros
Fotos: Salim Wariss/Arquidiocese de Belém

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