Centro histórico em clima de Círio

Durante algumas semanas, Belém reorganiza parte de sua vida em torno da grande festa dos paraense, o Círio de nazaré. E o Centro Histórico, onde tantas temporalidades da cidade permanecem sobrepostas, torna-se também lugar privilegiado para observar essa movimentação.

Ainda é setembro, mas já em tempo de Círio. Moradores ajeitam suas casas e parentes de outros estados e municípios se preparam para chegar. As imagens de Nossa Senhora já estão nas fachadas, nos altares das casas e nas vitrines das lojas. Além disso, há um clima cultural que segue feito pororoca pelas ruas da cidade.

Fizemos uma pequena curadoria dos eventos principais que já estão sendo divulgados nas redes sociais e imprensa. Pra quem conhece, faço um resumo: O Batalhão da Estrela ensaia. O Auto prepara seu cortejo. Os teatros anunciam seus espetáculos. Artesãos produzem as peças que irão para a feira.

Espaços culturais montam suas programações. E, do lado religioso, várias procissões são realizadas antes da principal. Uma delas leva os carros das promessas, preparados para voltar às ruas, tudo nas semanas que antecedem a grande romaria.

Theatro da Paz, teto na sala de espetáculo. Foto: Luciana Medeiros

Círio no centro histórico

Na Campina, no dia 2 de outubro, o Theatro da Paz recebe mais uma edição de Canções em Romaria, encontro que há quase duas décadas transforma a devoção mariana em repertório musical. Lucinnha Bastos, Marianne Lima e Andréa Pinheiro dividem o palco sob direção musical de Luiz Pardal, interpretando canções de compositores como Vital Lima, Edyr Proença, Almirzinho Gabriel e Guto Risuenho, além de nomes da música brasileira.

O Theatro da Paz recebe também, em 7 de outubro, Nilson Chaves e Vital Lima celebram os 40 anos de Interior, trabalho fundamental na trajetória dos dois compositores. E vai seguir assim. Queres ver, só?

No Reduto, também no dia 7, mesma noite desse show, o público é convidadoa acompanhar o Traslado dos Carros, primeira romaria oficial da programação do Círio, que sai da Basílica Santuário às 20h. Os carros utilizados nas procissões guardam a memória da antiga área portuária de Belém. Neste ano, o percurso muda pela primeira vez. Em vez de se dirigir à Doca, o destino será o Complexo Porto Futuro 2.

O Porto Futuro continuará dentro da movimentação ciriana. De 8 a 14 de outubro, o Parque Urbano recebe a Feira de Artesanato do Círio – FAC 2026, reunindo artesãos de diferentes tipologias. São objetos, imagens e criações que também mostram como o Círio movimenta uma extensa cadeia de trabalho e economia criativa em torno da festa.

Na quinta-feira, dia 8, a Cidade Velha terá também uma de suas pequenas procissões. Depois de missa na Catedral Metropolitana, servidores e integrantes da Assembleia Legislativa participam do tradicional Círio da Alepa, seguindo pelas ruas do bairro até o Palácio Cabanagem.

À noite, a movimentação muda de tom. Em frente à Praça do Carmo, o Mairí recebe o encontro DDD 91 + Orquestra Aerofônica, reunindo Arthur Espíndola, Jeff Moraes, Juliana Sinímbu, Aíla, Raidol, Júlia Passos e Amanda de Paula. A Orquestra Aerofônica apresenta Tambores Aerofônicos e a noite ainda tem DJ Maderito. É quando a quinta-feira do Círio vira pista, palco e encontro.

Voltando à Campina, no mesmo dia, o Teatro Experimental Waldemar Henrique recebe Para Maria, o Nosso Sim – Na Berlinda, a Fé que Trouxe Esta Canção, espetáculo do Ministério Seráfico com participação de Davidson Silva. Música e testemunhos se aproximam diretamente da experiência religiosa do Círio.

Rossy War, na sua primeira vinda à Lambateria do Círio. Foto: divulgação/Lambateria

Cortejo pra Nazinha e fé na lambada

É isso, respira fundo, porque talvez nenhuma manifestação traduza tão claramente essa apropriação cultural das ruas quanto duas programações que entram em cena às vésperas da grande procissão.

Na sexta-feira, o Auto do Círio volta à Cidade Velha para sua 32ª edição. Criado no âmbito da Universidade Federal do Pará, o Auto transforma há mais de três décadas as ruas do bairro em espaço de teatro, dança, música, performance e cultura popular.

O tema escolhido para o Auto — “Maria, Salvai e Guardai Nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé” — aproxima a festa da discussão sobre memória, patrimônio e identidade amazônica.

Em 2026, há ainda uma ausência que inevitavelmente atravessará o cortejo. Uma das idealizadoras do Auto, Zélia Amador de Deus, morreu no último dia 8 de setembro. No lançamento da edição deste ano, realizado cinco dias depois, artistas, professores, estudantes, familiares e companheiros de trajetória prestaram homenagem à professora emérita da UFPA.

“Tudo o que a gente for festejar, comemorar e celebrar sobre Zélia sempre será pequeno diante da grandeza dela. […] Zélia viveu a rua no melhor sentido da democracia, da luta e da diversidade. Ela idealizou o Auto do Círio, esse espetáculo que hoje reúne milhares de pessoas nas ruas para celebrar a Arte e a diversidade cultural”, disse Miguel Santa Brígida, professor da Escola de Teatro e Dança da UFPA, diretor e um dos fundadores do Auto do Círio.

É na sexta, 9,  que também rola o Festival Lambateria, já incorporado à programação cultural da quadra nazarena. E este ano a festa vem com dois aniversários: os dez anos da Lambateria e os 50 anos da lambada.

No NaBêra, na Cidade Velha, a noite reúne Félix Robatto, Lia Sophia, a peruana Rossy War, Adilson Ramos, Companhia do Calypso, Warilou, Mega Príncipe Negro e outros nomes numa mistura de lambada, guitarrada, merengue, cúmbia, carimbó, brega e tecnobrega.

“Eu sempre digo que a Lambateria não é uma festa ou um festival, é um movimento que sempre teve como objetivo valorizar e divulgar a cultura latino-amazônica dançante. Resgatar essa cultura que faz parte da nossa história”, disse Félix Robatto, guitarrista, produtor musical e um dos criadores da Lambateria.

Festa da Chiquina, com Eloy Iglesias e convidados. Foto: Mídia Ninja

Trasladação, festa LGBT e Arrastão

Chega então a vez do Arrastão do Círio. A preparação já começou. O Arraial do Pavulagem abriu oficialmente sua programação no início de setembro e os ensaios mobilizam cerca de 600 brincantes do Batalhão da Estrela.

No sábado, 10, o cortejo do Arraial do Pavulagem recebe a imagem de Nossa Senhora que chega, com o Círio Fluvial, na Escadinha do cais, e depois toma as ruas da área central com música, dança, mastros, bandeiras e personagens da cultura popular. A expectativa divulgada pela organização é reunir cerca de 25 mil pessoas.

“A gente já tá bolando uma apresentação que mistura dança com cena, com música ancestral, ou seja, misturando um pouquinho o samba de roda, o samba de cacete com o banguê, esse ritmo que vem aqui da região do Baixo Tocantins, e a gente traz neste momento para nós a nossa roda ancestral junto com o carimbó”, disse Júnior Soares, músico, compositor e um dos fundadores do Arraial do Pavulagem.

Horas depois, tem Trasladação, com saída do colégio Gentil Bitencourt, que leva a imagem novamente em direção ao Centro Histórico da cidade, mas não sem antes atravessar outra festa que há décadas faz parte desse sábado: a Festa da Chiquita. Nos arredores da Praça da República, sob o comando de Eloi Iglesias, a Chiquita mistura irreverência, diversidade e cultura LGBTQIA+ a esse enorme mosaico cultural que se formou em torno do Círio.

Praça do Carmo, em manhã iniciando edição do Circular. Foto: Luciana Medeiros

Domingo que culmina mas não encerra a festa

Ao mesmo tempo, ainda tem gente voltando das festas do sábado e já vai aguardar só a chegada da procissão próximo à Basílica de Nazaré, no domingo, 11 de outubro, a Catedral da Sé amanhecerá cercada por milhares de pessoas esperando a saída da berlinda. A partir daí é caminhada, promessa e emoção que culminam em mesa posta, reunião de família e mais festas pela cidade.

Passada a procissão e o tão aguardado almoço regado a iguarias no tucupi e maniçoba, o Centro Histórico não esvazia de repente. No dia 18, é a vez do Circular Campina Cidade Velha voltar às ruas, casas, ateliês, museus, galerias e espaços parceiros da Campina, Cidade Velha e Reduto. A 63ª edição chega atravessada por outubro e por esse estado de festa que, a essa altura, já tomou conta da cidade. Anotem e se programem.

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