Olhos para enxergar a Campina

Foto: Ângelo Martins

Miguel Chikaoka conduz oficina pelas ruas do bairro na construção de uma “cartografia afetiva”. Ação faz parte do projeto “Olhos de ver…com que olhos?”, da Kamara Kó Galeria.

Entre os salões do casarão colonial da Frutuoso Guimarães onde funciona a Kamara Kó, pessoas chegam, se espalham pelo assoalho de tábuas corridas, seguem pelo corredor lateral, passam pelo quintal verde, lavam coisas trazidas da rua, pedras, flores. Entram no laboratório de fotografia com suas pinholes feitas de tubinhos de filme, com câmeras tradicionais. Desenham, escrevem, pregam seus achados num painel na parede que aos poucos vai construindo uma cena de conexões de diversos olhares.

É o movimento de retorno de uma breve expedição pelo bairro da Campina, foco da segunda mini oficina do laboratório “Olhos de ver…com que olhos?”, conduzido pelo fotógrafo e arte-educador Miguel Chikaoka. “Mottanai – brincando com a luz” levou os participantes a uma interação com esse território em que a Kamara Kó está inserida, e que remete aos cruzamentos de memória e histórias pulsantes no centro da cidade.

Miguel Chikaoka desenvolve Laboratórios Olhos de Ver. Com que olhos? até dezembro. Foto: Ângelo Martins

“Essa ideia de ‘com que olhos a gente vê e vive o mundo’, é a chave de tudo isso. Todas as atividades propostas são a partir desse questionamento, pautando não questão da imagem fotográfica, mas do olho crítico, o olho poético. Não tem uma amarração de base técnica ou uma amarração da linguagem. A palavra, a fala, o verbo, o gesto, tudo está valendo”, explica Miguel Chikaoka, para quem as trocas entre as pessoas e suas experiências são o grande motor que enriquece todo esse processo.

“É interessante a gente fazer esse exercício de ver esse território, a partir das pessoas que aqui moram, que vivem esse espaço de maneira cotidiana, que já moraram aqui, que estão chegando pela primeira vez, como há uma pessoa de São Paulo e outra da Bélgica participando, e como eles podem contribuir nessa reflexão. O objetivo é muito de criar um curto-circuito de olhares, para que a gente possa melhorar esse olhar numa perspectiva mais humana”, aponta o educador.

Um presente para a cidade  e os artistas

A cantora e artista visual Camila Honda foi uma das pessoas que participaram do módulo do último sábado. “Poder fazer parte de mais um trabalho do Miguel é sempre um presente; para a cidade, para nós, artistas, podermos conviver com ele e participar desse fazer dele tão generoso, que este ano vem sendo mais generoso ainda”, diz, lembrando a programação do laboratório “Olhos de ver…com que olhos?”

“Ele é um artista e educador brilhante. Então, é sempre muito mágico. Agora, acho que ele está colocando o fazer fotográfico, a própria ideia de fazer da fotografia em questão. Como eu venho de outras linguagens artísticas, pra mim está sendo muito interessante incorporar essa ideia de registro, de memória e transformar a minha própria visão sobre arte”, reflete Camila.

Moradora da Campina, a professora Márcia Ferreira foi atraída pela ideia de fazer uma cartografia afetiva do bairro. “Minha vida está entrelaçada ao esse bairro. Eu cresci aqui, eu ralei meu joelho na Praça da República, eu corri da minha mãe, bebi pela primeira vez em um bar daqui. Trabalhei durante um tempo nos museus aqui, então tudo era muito por aqui”, conta.

“É interessante uma experiência como essa de ver o bairro com um outro olhar, mais artístico, ou mesmo de perceber coisas que não vemos no dia a dia, seja uma parede que foi pintada, ou conhecermos um outro local em que ainda não tínhamos prestado atenção”, diz Marta.

Raquel fixa imagens produzidas, no painel coletivo. Foto: Ângelo Martins

Professora de Língua Portuguesa no Ensino Médio na rede pública, Raquel Minerva vem experimentando a fotografia como linguagem e buscou a oficina movida ideia de observar a cidade.

“Eu me interessei pela proposta pedagógica. Acompanho o trabalho da Kamara Kó, do Miguel, então, me interessou essa proposta de perceber, olhar para coisas que muitas vezes a gente não está parando para observar.   Como professora, me interessa também a possibilidade de usar algo assim com os meus alunos”, conta Raquel.

Movida pelo hábito, ela conta que prestou muita atenção em placas, propagandas e tipografias que fazem parte dos cenários da Campina. “Foi o que me chamou atenção de imediato, mas tenho certeza que depois, olhando com calma as imagens que fiz, vão aparecer outras coisas.”

Para Camila Honda, há uma diversidade de propostas de como encarar a fotografia. “E tudo é válido. Mas o caminho que o Miguel escolheu é muito poético, bonito, tem muito do repertório, a trajetória dele, que por coincidência se conecta com a minha, de ancestralidade. A troca com as pessoas sempre é disparadora de muitos insights, e as dinâmicas que ele oferece são sempre muito motivadoras, para além da técnica. Mas através da técnica de fotografia, ele consegue expandir a ideia da própria fotografia”.

Cores da terra, próxima atividade com inscrições abertas. Foto; Divulgação

Prêmio Funarte – projeto segue até dezembro

As mini oficinas Gotas de Luz  e os módulos de oficinas integram o laboratório “Olhos de Ver… com que olhos?”, desenvolvido a partir da chamada “pedagogia dos fluxos”, metodologia criada por Miguel Chikaoka que propõe deslocamentos do olhar para além da técnica, estimulando estados de atenção, escuta e percepção dos fluxos que constituem o tempo, o espaço e as relações humanas.

O projeto foi selecionado pelo Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas 2025, com realização do Ministério da cultura e Governo Federal. Até dezembro seguem a realização dos módulos, com ações curatoriais e de montagem para a exposição que encerrará o projeto, em dezembro.

A próxima mini oficina está com inscrições abertas. a Gotas de Luz n. 3: Cores da Terra – Desenhando e Pintando com Pigmentos Mineraisserá realizada no dia 6 de junho, das 9h às 13h, na Kamara Kó Galeria (Travessa Frutuoso Guimarães, 611, entre General Gurjão e Riachuelo, bairro da Campina), com mediação de Miguel Chikaoka.

Público-alvo: Pessoas a partir de 16 anos interessadas em arte, fotografia, processos criativos e experimentações visuais.

Vagas: 20 participantes

Mais informações: @kamarakogaleria

Texto: Aline Monteiro | Edição: Luciana Medeiros | Fotos: Ângelo Martins
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