Waldemar Henrique, memória que Belém evoca

Encerramos a série especial de cinco reportagens do Projeto Circular Campina Cidade Velha dedicada às casas antigas do Centro Histórico de Belém com histórias sobre Waldemar Henrique, um dos grandes nomes da música brasileira!

O compositor, pianista e maestro paraense nasceu em 1905 em Belém, cidade onde ele também faleceu, em 1995, deixando um legado de cerca de 200 composições, em que se misturam sua formação erudita com as referências da cultura, do folclore e da musicalidade amazônicas.

Canções como “Tamba-Tajá”, “Uirapuru”, “Minha Terra” e “Foi Boto, Sinhá”, compostas entre as décadas de 1920 e 1930, não só são lembradas por sua qualidade técnica e melódica e sua importância histórica na musicografia brasileira, como também permanecem vivas no repertório de artistas contemporâneos e seguem ganhando novas interpretações.

Apesar de ter vivido parte da infância em Portugal e da vida adulta no Rio de Janeiro, a presença de Waldemar está imantada em Belém, trinta anos após a sua morte.

Está no teatro que leva o seu nome, fincado na Praça da República; está nas memórias do Theatro da Paz, que ele dirigiu e onde morou, por cerca de dois anos, em um dos camarins; e na praça batizada em sua homenagem, no bairro do Reduto, que se transformou num território de referência para manifestações da cultura popular, como as quadrilhas juninas, grupos de carimbó e parafolclóricos, e para os cortejos de boi-bumbá.

Fachada ainda conserva os azulejos na parte dos altos. Foto: Aline Monteiro

A casa da infância amarga a deterioração

Outro endereço ligado ao maestro está também no Centro Histórico, no bairro da Campina: a casa onde o maestro nasceu e onde viveu a primeira infância, antes de se mudar com o pai para a cidade do Porto, em Portugal, depois da morte da mãe.

“É um sobrado na rua Manoel Barata, entre a Avenida Portugal e a avenida 7 de Setembro. Ele nasceu lá, no dia 15 de fevereiro de 1905. O pai e a mãe moravam lá, mas a família foi embora para Portugal quando ele era muito menino”, conta Sebastião Godinho, que foi amigo, advogado e secretário pessoal de Waldemar Henrique.

Ele diz que desconhece a existência de fotografias que remetam a essa história da família de Waldemar na casa, ocupada por pouco tempo por eles. “O marco é que ele nasceu lá. Quando a família voltou para Belém, já foi para uma casa em frente à Praça Batista Campos, que hoje não existe mais”.

Projeção de como teria sido o casarão da infância de Waldemar. Imagem gerada por IA.

O endereço guarda pouco da beleza de outra época. A fachada de azulejos persiste na parte superior, com claros sinais de má conservação e janelas quebradas. O imóvel faz parte do conjunto tombado pelo Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Centro Histórico de Belém. Mas, na parte térrea, a fachada e o interior foram totalmente descaracterizados.

“Hoje há lá uma boate funcionando, curiosamente chamada de Paraíso. A casa está se deteriorando, porque o interesse lá é meramente comercial. Há muitos anos, se pensou em destiná-la ao Museu Waldemar Henrique, mas isso não foi para frente”, lembra Godinho.

“Ainda na década de 1970, o [jurista, professor, romancista, poeta e tradutor] Sílvio Meira, que era do Conselho Estadual de Cultura, propôs que se fizesse uma resolução para ser encaminhada ao Governo do Estado, para que a casa fosse desapropriada para esse fim, de um museu. Mas não saiu da cogitação”, completa Godinho, autor de “Waldemar Henrique: Só Deus Sabe Porque” (Ed. Falangola, 1989).

Até o fechamento deste texto, o Iphan, solicitado, não havia informado detalhes sobre a existência de algum ato do órgão junto ao proprietário relacionado às condições e à descaracterização da casa. A pessoa indicada no local como responsável pelo imóvel, identificada apenas como Manoel, foi contatada e afirmou ser proprietária, mas não quis falar à reportagem.

Pequenos extratos da vida comum

Se a memória desta primeira casa de Waldemar Henrique na Manoel Barata permanece incógnita, a vida e a trajetória do maestro podem ser conhecidas a partir de objetos pessoais, obras de arte, notas de jornais e registros audiovisuais, na exposição “Waldemar Henrique, Maestro da Amazônia”.

A mostra segue aberta no Museu da Imagem e do Som do Pará (MIS-PA), anexo ao Palacete Faciola, e poderá ser visitada na 63ª edição do Circular Campina. As peças fazem parte do acervo deixado por Waldemar, atualmente sob a guarda do MIS-PA, e incluem pinturas do maestro assinadas por diferentes artistas, prêmios e comendas ganhos por Waldemar.

Também há outros objetos que pertenceram a ele, desde móveis, óculos, carteiras e documentos até o estandarte usado no desfile da escola de samba Quem São Eles, de 1985, ano em que a escola homenageou o maestro com o enredo “Waldemar Henrique, o canto da Amazônia”.

“Ao longo do processo de pesquisa de montagem da mostra, fomos aprofundando informações que destacam a importância dele, inclusive num cenário nacional e internacional. O maestro teve obras gravadas na Rússia, fez turnê pela Europa, era amigo do Villa-Lobos, que adorava a obra dele. Waldemar chegou a ser diretor do Theatro Municipal do Rio de Janeiro”, ressalta Indaiá Freire, diretora do MIS-PA.

Ela conta que na década de 1930 Waldemar Henrique foi para o Rio de Janeiro, onde começou a produzir, compor e se apresentar em cassinos, como o do Copacabana Palace.

“Ele começa a ter uma visibilidade, e uma relação com outros grandes músicos e escritores, como Mário de Andrade, de quem ele também era amigo. Waldemar era um modernista, não interessava a ele ser erudito, compor obras clássicas. Ele gostava dos movimentos populares, das cantigas populares, da linguagem popular, e faz a deglutição de tudo isso e ressignifica isso em sua obra musical”, completa a diretora.

Na exposição, esse contexto cultural da época também pode ser sentido no documentário “Waldemar Henrique Canta Belém” (1977), que é exibido dentro da mostra.

Para Indaiá Freire, a mostra ajuda a apresentar Waldemar Henrique a outras gerações. “É bom trazer sempre, lembrar para não esquecer. Eu conheci o maestro, sou contemporânea do final da vida dele. Mas há jovens que não se debruçam sobre música que não o conhecem. Há estagiários aqui que não tinham ouvido falar dele. E é fundamental resgatar essa memória. Ele é o maestro da Amazônia! Sua obra influenciou outros compositores, músicos do Brasil”.

SERVIÇO

Exposição: “Waldemar Henrique: O Maestro da Amazônia”

Local: Museu da Imagem e do Som do Pará (MIS-PA) – Centro Cultural Palacete Faciola

Endereço: Avenida Nossa Senhora de Nazaré, nº 138, bairro de Nazaré, Belém (PA)

Visitação: terça-feira a domingo, das 9h às 17h

Entrada: gratuita

Informações: mis.para@gmail.com

Série de reportagens

Acessem todas as reportagens aqui no site. Ao longo da série, revisitamos imóveis que guardam histórias, memórias e personagens da cidade, revelando diferentes relações entre patrimônio arquitetônico, cultura e vida cotidiana.

Reportagens: Aline Monteiro | Edição e coordenação: Luciana Medeiros | Rede social: Thalita Barros | Fotos: Cláudio Ferreira, Otávio Henriques e colaboração de acervos dos entrevistados e registros de Aline Monteiro e Luciana Medeiros. Nesta reportagem, fotos de Aline Monteiro. Na abertura , foto de capa do maestro Waldemar Henrique: Luiz Braga – reprodução da Internet.
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