No caminho dos casarões e da memória

Na última década, espaços ligados à cultura e entretenimento têm ampliado sua presença no centro histórico de Belém, de olho na revalorização dessa área da cidade. É um movimento impulsionado pelo desejo de resgate de identidade e pertencimento, sentimento no qual o projeto Circular Campina Cidade Velha tem sua gênese como iniciativa da sociedade civil.

Hoje, a rede construída em torno do projeto tem mais de 40 parceiros, muitos deles ocupando imóveis históricos como um valor agregado ao que oferecem ao público. Espaços como a Kamara Kó (da idealizadora do Circular, Makiko Akao), os restaurantes Casa Igá, Celeste e Puba e o bar Candeeiro, entre outros, ocupam casarões que carregam memória.

Foi em busca de um lugar conectado com a história da cidade que os empresários De Lucas e Gracimeire Souza, mãe dele, chegaram ao sobrado localizado na Rua Oswaldo Cruz, em frente à Praça da República, que desde setembro de 2025 abriga a Casa do Sol. O espaço une a prática de ioga a eventos sociais, amparado por serviços de restaurante, além de pilates e um café que deve abrir em breve.

Casa do Sol, um dos novos espaços parceiros da rede Circular. Foto: Otávio Henriques

“A gente sempre pensava na Casa do Sol como um refúgio, tanto que pensamos primeiro em fazê-la no Combu. Eu e minha mãe frequentamos muitas vivências de ioga, com momentos em que a gente se desconecta do dia a dia, e a gente queria proporcionar isso. Mas num lugar de fácil acesso. Um ponto de paz em que as pessoas se sentissem fora da cidade mesmo estando no meio dela”, conta.

O casarão não é um bem tombado, mas, por estar no entorno da Praça da República, esta, sim, protegida por lei, exigiu mais cuidados nas obras de adaptação e a contratação de um escritório de arquitetura especializado, o Boho Estúdio Criativo. O que De Lucas descreve como um investimento no lugar certo para o negócio.

“Visitamos muitas casas até chegar ao que queríamos. O imóvel traz muita beleza, uma energia única, tem a essência da casa de vó, onde a gente vai para ser bem cuidado”.

Depois do fechamento de espaços comerciais no entorno da Praça da República, em parte pela crise pós-pandemia, De Lucas diz estar observando um novo momento, estimulado pela realização da COP-30: “Estou vendo algumas coisas reabrindo e acredito que a área precisa muito ser ocupada da melhor forma”.

Vila Prana – Um prédio que abriga diversas iniciativas, no Reduto. Foto: Cláudio Ferreira

Legado industrial que espera por políticas públicas

No Reduto, os imóveis que formam a Vila Prana — um legado do passado fabril do bairro no século XIX — foram adquiridos como forma de investimento pela família de Caroline Miranda, em 2007.

“Já era um imóvel comercial, era uma fábrica de macarrão de um português chamado Manoel Cardoso”, conta Carol, administradora do lugar, que atualmente reúne a loja de cafés especiais Bem Cafeinado, a confeitaria Bolo de Cristal, o escritório de arquitetura Prana Tropical e o projeto Laboratório da Cidade.

Para ela, há questões emblemáticas em ocupar o espaço no número 913 da Rua 28 de Setembro. “A 28 de Setembro foi a primeira rua comercial de Belém, então, pra gente, é muito representativo ter as nossas atividades no local onde o comércio da cidade começou. Além disso, o Reduto foi um bairro muito industrial. A gente tem vários galpões históricos ali, algumas vilas operárias muito interessantes, fábricas como a Phebo, perto da gente”.

O que não significa que não haja problemas a serem solucionados, diz Caroline, que espera por um olhar mais carinhoso da administração pública para o bairro, com políticas mais eficientes, incluindo segurança pública. “É muito importante a gente estar ocupando esse espaço que está degradado, precisando de cuidado, um bairro que foi muito importante para o crescimento da nossa cidade. E a gente torce muito para que mais espaços sejam ocupados com suas atividades para reacender o bairro”.

Casarão do Espaço Cultural Valmir Bispo – na Campina. Foto: Amarílis Marisa

Memória conectada pela arte

Abrigado desde 2014 em um casarão na Rua Padre Prudêncio, na Campina, o Espaço Cultural Valmir Bispo Santos não era uma ideia quando os irmãos Vânia e Valmir Bispo Santos, com o apoio do pai, Valdir Sérgio, compraram o imóvel quatro anos antes. “Somos a quarta família proprietária deste imóvel centenário, cuja documentação data de 1920”, diz a mosaicista Vânia.

Enquanto Valmir fixou moradia nos altos, o porão se transformou na loja Antiquários dos Azulejos, comandada por Vânia, voltada a comercializar revestimentos cerâmicos que as fábricas deixaram de produzir.

“Em 2012, meu irmão faleceu. Dois anos depois, com apoio de amigos artistas — Mauro Barbosa, Nédia Barbosa, Marília Melo, Michele Quadros e Deivid Santos — transformamos a casa em um espaço cultural em homenagem a ele, que era historiador e militante cultural, apaixonado pelo centro histórico de Belém”, conta Vânia.

Parceiro do Circular desde 2015, hoje o espaço é mantido por um coletivo de iniciativas: o Antiquário dos Azulejos, o Atelier Marília Melo e o Toró – Gastronomia Sustentável, capitaneado por Susane Rabelo e pelo chef Wagner Vieira.

Com galeria e promoção de feiras criativas e oficinas, o espaço funciona de segunda a sábado, com agendamentos pela plataforma Ecult – Espaços Culturais e Governança. “É difícil manter exclusivamente com recursos próprios, mas necessário para a independência”, avalia a artista que insiste que trazer a memória dos casarões ao presente é fundamental ao coletivo da cidade.

“É muito importante termos uma cultura viva em uma área histórica, que é muito comercial e residencial. Criar uma consciência cultural tem tudo a ver com a história da cidade, para atrair mais ambientes voltados às artes, revitalizar nossos casarões e transformá-los em espaços de visitação, que respirem nossa memória histórica e cultural, sendo uma referência da cidade”, defende.

Não perca a próxima edição do Circular Campina Cidade Velha, no dia 7 de junho. Aproveite para mapear e conehcer os casarões que estão pelo meio do caminho. Siga-nos no Instagram @circularcampinacidadevelha

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