Cultura em diálogo com a Campina

Dando sequência a nossa série de reportagens sobre as histórias dos casarões, casas, imóveis e seus habitantes, no centro histórico de Belém, apresentamos a vocês o Corredor Polonês.

Em 1979, o adolescente Karlo Rômulo chegou com a família ao bairro da Campina, vindo do Amapá, para que ele e os irmãos pudessem continuar os estudos em Belém. Naquele momento, ele sabia pouco sobre a história do sobrado que passaram a ocupar, no número 253 da rua General Henrique Gurjão.

Anos depois, toda a atmosfera que envolvia o imóvel, onde antes havia funcionado uma famosa casa de “alta rotatividade”, como ele diz, e seu entorno passariam a ser o substrato de seu exercício como multiartista na música, na poesia e nas artes visuais.

“Eu sempre trouxe à tona o bas-fond, a periferia da Belle Époque, o underground, dentro desse ambiente de prostituição, desses personagens da noite. Trouxe essa história como atmosfera, como contexto histórico, como continuidade, enquanto memória, até para entender todo o contexto que aqui estava instalado, sempre em transformação”, conta ele, que usou as iniciais do seu nome para criar sua persona artística, Krom.

Kasa Krom, no bairro da Campina

Um corredor cultural no ‘Quadrilátero do Amor’

No começo do século 20, a casa tinha abrigado um famoso prostíbulo cujo corredor, comprido, que acompanha a casa da frente aos fundos dava acesso a vários quartos onde as “polacas” recebiam seus clientes.  Era conhecido como Corredor Polonês e ficava dentro da área conhecida como o “Quadrilátero do Amor”, onde havia também a famosa pensão da Madame Zezé, na esquina da General Gurjão com a Ferreira Cantão.

Na Campina, a zona de prostituição era demarcada entre as ruas Primeiro de Março, Riachuelo, Padre Prudêncio e General Gurjão, com recorte para a antiga Rua da Bailique, hoje Ferreira Cantão. Uma área que depois também passou a ser referida como ‘Quadrilátero Maldito’.

“Ali, desde a passagem do século 19 para o século 20, se estabeleceu como um lugar de resistência”, lembra Krom, citando, como exemplo famoso disso, a reação das prostitutas à tentativa higienista do governador Alacid Nunes de acabar com a zona do meretrício no centro da cidade.

“Era um lugar que abrigava uma comunidade em que conviviam famílias, bordéis, pensões, um grupo bem diversificado. Ao longo do dia, cada grupo tinha o seu momento da rua, seu momento da calçada para suas atividades”, destaca o artista.

Foi essa memória de resistência que ele quis trazer de volta em 2004, ao abrir novamente o Corredor Polonês como um centro cultural, após o falecimento do pai. “Foram muitas histórias que, ao longo do tempo, a gente foi ouvindo, de memórias de gerações passadas. Como nunca pretendi sair daqui, mantive a memória e aglutinei pessoas em torno disso”, explica.

Até 2011, o espaço manteve intensa atividade cultural, como palco para exposições, apresentações musicais, encontros e trocas, enquanto desdobramento da própria atuação de Krom como artista e do desejo dele de se conectar com a história da Campina.

Paola, advogada, música e produtora cultural

Um encontro na multidão

Foi em meio à militância cultural no bairro que ele conheceu a artista da música, produtora cultural e advogada Paola, que se tornou sua companheira. Ela atuava junto ao Centro de Cultura Libertária da Amazônia, entidade criada há mais de 30 anos para fomentar o pensamento socialista libertário.

Os dois se encontraram numa mobilização do CCLA que buscava mudar o nome da rua General Henrique Gurjão para Bruno de Menezes, em homenagem ao escritor que foi também militante anarquista.

“A minha relação afetiva com essa rua começou com uma militância política que entendeu que, para que se ocupe um espaço, mesmo que se traga um excelente projeto, para qualquer ação que se faça, é preciso chegar descalço no território e pedir ajuda para ele. Perguntar qual é o melhor calçado para circular nele”, compara Paola, que acabou se mudando para a casa, onde também funciona seu escritório de advocacia popular.

Juntos, os dois estão construindo um novo momento para o casarão da General Gurjão, rebatizado de Kasa Krom, agora como uma produtora cultural, espaço para atividades artísticas como apresentações, cursos, exposições, uma área de hostel, além de um café que faz a “ponte” da casa com a rua.

O lugar está sendo reformado para assumir as novas funções, o que deve se concluir em novembro. Antes, eles já abrem as portas nos fins de tarde das sextas-feiras, entre as 16h e 22h.

“É quando a gente coloca a proposta de uma vida mais analógica, de escutar um vinil, de desligar um pouco das nossas atividades ordinárias e pensar a vida como vizinho, sentar na cadeira na frente da porta da casa… tão belenense isso e tão perdido no tempo”, descreve Paola.

Cabaré (ou pensão) da Zezé

Histórias da Campina

Krom e Paola acreditam que as histórias que emergem da Campina fazem a força do território para contrapor as ameaças que vão se modificando com o tempo – hoje, a especulação imobiliária é uma das principais.

Para resistir, recuperar o sentimento de vizinhança é um ponto-chave. “Acreditamos na política pública da vizinhança. Não dependemos do Estado para agir no nosso território. A gente tem um campo muito forte para desbravar, de estigmas que foram construídos por um projeto de Estado, de gentrificação. A gente precisa fazer essa pergunta: por que o tempo todo o mercado, o sistema, o Estado querem a gente fora daqui? Porque aqui é uma área central, valorizadíssima, que tem história”, reflete.

Paola diz que ela e Karlo estão empenhados em se relacionar com os movimentos que aqui atuam no bairro e cita entre outros, a Kamara Kó Galeria, o Fábrika Stúdio e a Discosaoleo. “Queremos nos relacionar com todos, com a mercearia da esquina, e não só com o mundo criativo, mas o mundo econômico que possa gerar uma economia libertária para nós em nível de sustento e financiamento”.

Para Paola, a Kasa Krom faz parte de um legado criativo em que é preciso fazer sempre esse retorno à história.  “A gente mora aqui no segundo andar, então abro a janela e dou de cara com o Cabaré da Zezé, esse casarão que hoje é um vazio urbano, mas que nos anos 1920 era o lugar onde os modernistas dançavam, onde o Waldemar Henrique [o maestro pianista] fez a primeira audição pública ao piano. Eu ouço todas essas notas e me sinto parte dessa história enquanto legado”, conclui Paola.

Acompanhe: https://www.instagram.com/kasakrom253/

Reportagem: Aline Monteiro | Edição: Luciana Medeiros
2

No caminho dos casarões e da memória

5 meses atrás

3fbbcb_adfb50536fc64f438797c73a9f70f7dc~mv2

IPHAN: prédios históricos abandonados

6 anos atrás

2

Neste domingo, o Circular também é território para criança

6 meses atrás

4edded_50d14385ea3c4d799c18f3b9d3ce3d54~mv2

Circuitinho histórico para crianças no 43º Circular

4 anos atrás

Foto - Cláudio Ferreira

Circuitinho chega a 12ª edição com passeio pela Belle Époque

1 ano atrás

Núbia de Freitas e Thonnys Athos, promovem uma aula sobre vinhos. Foto: Acervo Avintura

“Experiência Avintura” faz degustação com experiência sensorial

7 meses atrás

Assine nossa news e receba todas as novidades sobre o Projeto Circular