Sociedade discute salvaguarda dos saberes do Ver-o-Peso 

Foto: Irene Almeida

Falada e cantada ao longo dos anos como grande síntese cultural do povo paraense, as atividades da feira do Ver-o-Peso ainda carecem de ser reconhecidas oficialmente como patrimônio cultural protegido. O assunto foi tema de sessão especial na Assembleia Legislativa do Pará nesta segunda-feira, 11 de maio.

A sessão foi presidida pelo deputado Carlos Bordalo, que apresentou um Projeto de Lei, no final de abril, para o reconhecimento dos ofícios, atividades e setores do Complexo do Ver-o-Peso como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Pará.

O projeto ainda tramita em comissões na Alepa, mas a expectativa do deputado é fazer com que ele siga o mais breve possível para votação em Plenária.

Assim, a iniciativa poderá encorpar o movimento crescente entre trabalhadores do Ver-o-Peso, estudiosos e defensores do patrimônio cultural, para que a salvaguarda dessas atividades seja feita em nível federal.

“O que se encontra em debate é o dever do Estado brasileiro de reconhecer e salvaguardar um dos mais importantes territórios culturais da Amazônia e do Brasil”, disse Bordalo, que liderou a última grande intervenção de reforma do complexo, concluída em 2002, quando era secretário municipal de Economia.

Sessão na ALEPA, nesta segunda, 11. Foto: divulgação

Tombamento de 1977 só protege estrutura arquitetônica

Para surpresa de muitos, o tombamento federal do Ver-o-Peso realizado pelo Iphan-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1977 (Inscr. nº 69, 460 e 525) abrange o conjunto arquitetônico e paisagístico em toda a sua estrutura, desde a Feira do Açaí, os mercados e a feira em si. Mas os saberes e fazeres que envolvem a feira quase quatrocentona – o complexo completará 400 anos em 27 de março de 2027 – não estão incluídos.

Isso acendeu o alerta dos trabalhadores do Ver-o-Peso, que temem ver descaracterizadas as funções exercidas na feira a partir de intervenções externas. Como, por exemplo, já ocorreu com a mudança das viagens do Porto da Foca (de onde saíam barcos para Barcarena e ilhas), que passaram a ser realizadas do novo porto na avenida Tamandaré.

“Uma das questões muito importantes que estamos debatendo é que existem rumores que alguns setores podem mudar [de lugar]. Já mudaram o famoso Porto da Foca, o que já gerou impacto muito grande, porque as pessoas que iam embarcar, almoçavam, tomavam café no Ver-o-Peso, compravam hortifrúti, deixavam o carro no estacionamento… E o poder público não conversou com ninguém, mudaram na marra. Há rumores de que querem mudar também a Pedra do Peixe, a Feira do Açaí”, disse Mário Lima, presidente do Instituto Ver-o-Peso, referindo que os feirantes têm recebido informações de que atividades como o desembarque, compra e venda de açaí poderiam ser colocadas em outros espaços – como o Porto da Palha.

Hoje com cerca de mil associados, segundo Mário, o Instituto Ver-o-Peso representa diferentes categorias de trabalhadores do complexo, cobrindo todos os 28 setores de atividades. “Não sabemos o que é verdade, mas estamos nos organizando porque esse é nosso patrimônio imaterial. E nossas atividades, nosso trabalho, ainda não são registrados [como patrimônio]. Um dos nossos objetivos aqui é fazer um grande debate para que a Assembleia abrace esse projeto, através do deputado Bordalo, do deputado Chicão, e leve para a Plenária, para dar mais segurança para nós, para que no futuro não sejamos surpreendidos com uma mudança”, completou.

Cristina Vasconcelos, do IPHAN – promessas de retomar processo de 2008. Foto: divulgação

Iphan vai retomar processo do registro iniciado em 2008

Além de representantes dos trabalhadores do Ver-o-Peso, participaram da audiência a superintendente regional do Iphan, Cristina Vasconcelos; a diretora do Departamento do Patrimônio Histórico e Cultural do Estado, Rebeca Ribeiro; o diretor de Feiras e Mercados do Pará, Manoel Rendeiro (o Didi do Ver-o-Peso); o diretor de Desenvolvimento Urbano de Belém, Marcos Costa, e ainda representantes da OAB-Ordem dos Advogados do Brasil, Ministério Público do Estado, e Universidade Federal do Pará.

A superintendente do Iphan, Cristina Vasconcelos, detalhou tecnicamente como funcionam os processos de proteção – registro, inventário e tombamento – e explicou que o órgão iniciou, em 2008, um primeiro levantamento (NRC) dos saberes e fazeres do Ver-o-Peso.

As pesquisas iniciaram à época em que o complexo teve sua candidatura à patrimônio mundial pela Unesco, para embasar a possibilidade de um registro. Mas para o processo seguir adiante, o órgão precisava ser provocado pelo coletivo – o que não foi feito naquele momento.  Desta vez, ela confirmou que o órgão foi procurado pelas associações dos feirantes e já foram realizadas as primeiras reuniões para orientação.

Agora, o processo segue novos passos – como a sessão especial e a realização de oficinas com os setores do Ver-o-Peso e da sociedade civil. “Vamos ampliar esse processo com a cidade. Porque quando a gente fala de registro, a gente fala de conhecimento popular, e o Ver-o-Peso é uma feira que tem quase a idade de Belém. Tem que ter toda essa dinâmica, esses debates”, disse.

Segundo a superintendente, o processo deve tomar como referência o registro já feito pelo Iphan da Feira de Caruaru, em Pernambuco. “Ela é registrada como um local de conhecimentos culturais, e é por aí que o Iphan vai encaminhar também.”

Com o processo para o registro já iniciado, disse Cristina, já há alguma proteção assegurada. “Para que haja qualquer tipo de alteração, os feirantes, que são os detentores de conhecimento, e o Iphan, que está iniciando o registro, vão precisar ser ouvidos”.

Pedra do Peixe e casarios ao fundo – Foto: reprodução/divulgação

Contra a gentrificação da cidade

Manoel Rendeiro, o Didi do Ver-o-Peso, compondo a mesa como diretor de Feiras e Mercados do Estado, insistiu que acompanhava a questão como feirante atuante há mais de 50 anos. Para ele, a sessão especial dá início a um “momento histórico”.

“A gente vem se preocupando com essa questão ao longo de muitos anos. E agora chegou esse momento. O Ver-o-Peso está praticamente patrimoniado, os mercados de carne e peixe, já não se pode mexer. A nossa preocupação é com as atividades, que são as nossas raízes. Se existe Ver-o-Peso, é porque existe feirante trabalhando. É o maior bem que o Ver-o-Peso tem”, defendeu.

“É um passo muito importante não só para a categoria, mas para a cidade de Belém, para que gerações e gerações venham a usufruir isso. O debate aqui não é político”, completou Didi.

Um dos momentos mais aplaudidos foi a fala da psicanalista e professora Flávia Lemos, do curso de Psicologia da UFPA, no ato representando o reitor Gilmar Pereira. “Para mim, que trabalho com saúde mental e na história cultural, essa pauta é extremamente importante, de direitos culturais, de vínculos socioafetivos, sociocomunitários. Mas também é uma pauta de memória que produz quem somos. Não temos saúde mental se não temos os suportes da memória resguardados”, destacou.

Flávia Lemos ressaltou processos maléficos que têm envolvido o uso de patrimônios culturais em Belém, por conta dos interesses do capital, os quais também põem em risco o Ver-o-Peso.

Saberes do Ver-o-Peso. Foto: Luciana Medeiros

“Se eu separo o trabalho da cultura, dos modos de vida, dos valores, e coloco o trabalho apenas como produto; e gentrifico, produzo higienismo no centro de Belém, sobretudo num lugar estratégico de especulação imobiliária e da visão da cidade como um negócio, o que acontece?”, provocou, antes dela mesma responder.

“Desloco trabalhadores e trabalhadoras que em geral são negros e negras, vindos de comunidades tradicionais, povos indígenas, pescadores artesanais, tiro esses trabalhadores, suas histórias e seus fazeres dali, porque coloco aquele espaço como o lugar privilegiado de uma elite”, descreveu.

“Aí transfiro essas pessoas para uma outra feira, construída e higienizada em outro local, afastado do centro, e utilizo esse equipamento cultural para a gourmetização da cidade, como um atrativo cultural. Porque aí eu uso o tombamento do bem a favor do ‘business’, de uma pequena elite regional”, disse, recebendo aplausos.

“É disso que estamos falando: gentrificação, arquitetura hostil, memoricídio, racismo ambiental, religioso, porque a gente está literalmente expropriando esses trabalhadores e trabalhadoras, e o povo do contato com os modos de vida, saberes locais complexos, fundamentais para que a gente saiba a nossa história”, destacou a professora.

Texto: Aline Monteiro | Edição: Luciana Medeiros
Sugestões de pauta: circular.comunica@gmail.com
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