A porta estreita entre o ativismo e o capital

Foto: Aryanne Almeida

Artistas vivem dilemas permanentes para manter projetos sem perder o senso crítico e responsabilidade com pautas coletivas como a agenda ambiental

As interseções entre cultura e clima foram o foco da mesa de encerramento do 4º Fórum Circular – Patrimônio, Clima e Sustentabilidade, na última sexta-feira, 31 de outubro, na Casa da Linguagem.

Com mediação da jornalista Natália Melo, o cantor e compositor Arthur Nogueira, o fotógrafo Miguel Chikaoka e a presidente da Bienal das Amazônias, Lívia Condurú, refletiram sobre o papel da arte para a conscientização ambiental e importância do posicionamento crítico de artistas como impulsionadores de ação.

Arthur Nogueira, que está responsável pela curadoria da Central da COP, a convite do Observatório do Clima, contou que ele mesmo tem passado por uma espécie de “acordar” sobre a necessidade de se posicionar em temas importantes para a sociedade.

Miguel, Arthur, Nathalia e Lívia. Foto: Aryanne Almeida

“Faço uma autocrítica mesmo: quando a pessoa descobre que tem um talento, tem o sonho do reconhecimento, mas aí a coisa da celebridade se confunde. Só que cada vez mais me afasto dessa ideia e vejo que o artista tem que ser um ser pensante. Essa tomada de consciência é importante e ficou muito claro, a partir do edital, que a classe artística nem sempre se dá conta do que pode fazer”.

Arthur partilhou como foi a seleção de artistas para integrar a programação da Central da COP, que vai ocupar o Teatro Waldemar Henrique e o Instituto de Ciências da Arte (ICA) da UFPA entre os dias 10 e 21 de novembro, como uma base de informações sobre a crise climática e a conferência da ONU, além de uma agenda cultural.

A curadoria foi feita através de uma chamada pública e debate com a classe antes da composição do edital. “Fizemos uma escuta, antes de abrir a chamada e o que os artistas diziam era que não queriam estar relacionados ao nome de nenhuma mineradora. Recebemos 267 inscrições, das quais chegamos a 28 projetos e depois conseguimos incluir mais 4. A maior parte são peças teatrais, mas também há projetos musicais e exposições”.

A demanda dos artistas e a ação das mineradoras no estado, maiores patrocinadoras de ações culturais locais, levou o debate a questionar as implicações de atrelar projetos a empresas que têm um grande passivo ambiental. Para Lívia Condurú, lidar com conflitos como esse faz parte da rede de relações sociais, e é importante ser encarado com transparência e algum pragmatismo.

“A gente precisa entender que precisa acessar o sistema, para que mais pessoas possam debater o sistema. Porque se a gente não distribui dignidade, quais os tempos livres que a gente tem para pensar formas de destruir alguma coisa? Se a gente só fica pensando em pagar conta, não vai sobrar tempo para a gente se organizar politicamente para nada”, provocou.

Livia também destacou que nunca recebeu condicionantes para o tipo de projeto que queria apresentar. “A Bienal das Amazônias tem patrocinadores que são complexos, mas a gente está trabalhando com dinheiro público, que vem por meio dessas empresas, e que também vem de um universo de cultura, porque a gente não lida com o CEO, a gente lida com pessoas que são do campo da cultura, que vão saber te ouvir. São negociações.”

Lívia Conduru – Bienal das Amazônias

Ela citou os projetos possíveis a partir dos financiamentos, como a itinerância em um barco-obra que levou  a Bienal a Marabá, Canaã dos Carajás, Manaus, São Luís, Macapá, Boa Vista, até Medellín, na Colômbia. “Com o barco, a gente conseguiu atingir muitas cidades, mobilizar 60 mil pessoas. O barco, que é um espaço absolutamente ordinário do nosso cotidiano, mas que a partir que você o transforma, vira uma plataforma, um espaço de encontro”, destacou.

Se há dissonâncias no campo da execução dos projetos culturais e da mobilização através da arte, Miguel Chikaoka deixou claro que seguimos no jogo quando não perdemos a chance de ler a realidade com sensibilidade.

Em uma fala bastante filosófica, partiu sobre as explicações da física sobre a luz em sua dimensão espacial-temporal, passando por suas experiências educativas em campo, a partir da fotografia, para falar também sobre a necessidade de reconexão com o todo através da relação com os territórios. Inclusive a importância de ver a riqueza de possibilidades que eles podem oferecer.

“Eu falo de cultura e arte, cultura e clima, porque não consigo separar nada, tudo está ligado. Quando eu falo de reconhecimento de território, mesmo nos lugares mais remotos, é que a tecnologia está levando as pessoas para um mundo fictício. As pessoas não reconhecem o chão. Já existe, por força do capitalismo, sobretudo, a perda de referencial há longos anos atrás”, disse o fotógrafo educador.

Miguel Chikaoka: pedagogia dos fluxos. Foto: Aryanne Almeida

Para ele a escola precisa ser totalmente modificada. “Essa escola que nós temos estruturada no modelo de educação, está mais do ultrapassada. Se não nos colocarmos numa posição de que a educação tem que se dar a partir da sua base referencial, daquilo que nós somos, operários, brincantes, qualquer coisa… aquele chão, há uma potência pedagógica nessa condição”, diz Chikaoka.

Miguel aponta que há muita riqueza de possibilidades em lugares às vezes considerados pobres em condições.

“Acho que um menino que nasce num apartamento no 20º andar, que vive trancado, cheio de servidores, ele é pobre, é carente, só que tem o poder do capital. Fui para a educação porque acho que é preciso trabalhar o sensível na educação todo o tempo”, completa.

O 4º Fórum Circular – Patrimônio, Clima e Sustentabilidade foi realizado nos dias 30 e 31 de outubro, na Casa da Linguagem, pela Associação Circular, com patrocínio master da Lojas Renner S.A., e apoio da UFPA – Fórum Landi e ICA, e do Governo do Estado, por meio da Fundação Cultural do Pará – Casa da Linguagem.

Texto: Aline Monteiro

Edição: Luciana Medeiros

Fotos: Aryanne Almeida

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