Patrimônio histórico de Belém: um dia para reflexão

Que tal um exercício de imaginação: como seria se você, adulto, não se lembrasse da infância, de como foi criado, onde cresceu, o que estudou, quais caminhos seguiu, as pessoas que conheceu e o que formou seus valores, até chegar onde está?

Pense agora em uma cidade e no grupo de pessoas que a habita. Como entender as dinâmicas que a caracterizam, os problemas que enfrenta, o que a define, sua cultura, sem olhar para o passado e sem estar conectado à sua história?

Essa é a importância daquilo que chamamos de “patrimônio”, que ajuda a contar a história de um povo, construir sua identidade coletiva e transmitir esse legado às gerações futuras. Pode ser aquilo que preservamos em prédios e monumentos, bens e objetos, ou nos costumes e manifestações artísticas que nos conectam com quem somos e com os territórios que habitamos.

Durante todo o mês de agosto, celebramos a importância do patrimônio, especialmente no dia 17 de agosto, Dia Nacional do Patrimônio Histórico, que dá a deixa para uma nova reflexão sobre como Belém tem olhado ou virado as costas para sua memória, ao não abraçar seu Centro Histórico e a riqueza das histórias que ele guarda.

No caso do patrimônio edificado, há cada vez mais o risco de desaparecimento — seja por desabamentos decorrentes da falta de manutenção, como se viu recentemente no centro comercial, com um imóvel na rua 13 de Maio, ou por sucessivas demolições para dar espaço a novos prédios.

Um processo que não tem sido barrado pelo tombamento legal do Centro Histórico (homologado oficialmente pelo Iphan — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — em 2012), incluindo cerca de 2.800 edificações, entre marcos coloniais dos séculos XVII e XVIII e conjuntos arquitetônicos do século XIX, vinculados à época da exploração da borracha na Amazônia.

Mas o que nós, que vivemos nessa cidade, estamos fazendo de errado? O que poderíamos fazer para reencontrar nossa própria história?

“A gente tem que sair do discurso. A gente acha que tem que preservar, mas ninguém preserva”, opinou o jornalista e corretor de imóveis Salomão Mendes, durante o passeio promovido pelos projetos Roteiros Geo-Turísticos (UFPA) e Rolé Belém, que levou as pessoas a visitarem vários pontos do bairro da Campina, no último dia 2 de agosto, dentro da programação do Circular Campina Cidade Velha.

Igreja dos Mercedários, que aguarda pelo restaura com recursos do BNDES

Patrimônio nosso de cada dia

Ao lado dele, a sogra Maria Andrade refletia sobre as belezas que observou em imóveis em ruas como a João Alfredo. “Nunca tinha olhado para cima. É tão lindo. Moro aqui há muitos anos e nunca tinha visto algumas coisas. Também está tão atribulado lá de camelôs que a gente não consegue ver a beleza do lugar”, diz.

Para ela, o que chamou a atenção foi o quanto está deteriorado. “Vim pensando no que nós, enquanto sociedade, poderíamos fazer para melhorar. Acho que a gente tem que ir para a rua e reclamar. Tem que ter muita pressão da sociedade e muito querer do poder público para resgatar esse Centro Histórico.”

Durante quase dez anos, Salomão se dedicou a pesquisar o patrimônio de Belém, com a página “Belém Antiga” no Facebook, em que resgatava histórias da cidade. “A ideia, quando eu fazia a página, era que, para a gente valorizar, a gente precisa conhecer, ter interesse. Eu tenho que receber alguém em Belém, levar essa pessoa para passear e falar com orgulho que aqui foi isso, ali foi aquilo”, destacou.

E citou um exemplo: “A gente passou pela Livraria Universal. A história dela, o poder da Livraria Universal naquela época era um negócio absurdo. Ela era também uma editora, que trazia para cá coisas que não tinha em lugar nenhum. E as pessoas não sabem disso”, se espanta.

No imóvel, hoje, funciona lá uma loja de produtos chineses, informa Salomão, refletindo que é essa história passada adiante que valoriza as edificações e faz com que um imóvel restaurado também ganhe valor de mercado. “Na hora que eu começar a ver significado nas coisas, eu começo a valorizar, porque eu começo a me identificar com elas.”

A livraria universal, nos áreos tempos

História coletiva construída por memórias entrelaçadas

A emoção do professor e pesquisador Afonso Medeiros, da Faculdade de Artes Visuais/ICA-UFPA, ao visitar a Biblioteca do Grêmio Literário Português, na rua Manoel Barata, no bairro da Campina, atesta a ideia de Salomão.

“Afetivamente, é uma memória muito importante para mim, porque aqui, exatamente neste salão, fiz toda a minha educação cinematográfica, no cineclube com Pedro Veriano, Luzia Miranda e vários intelectuais que passavam o que se chamava ‘filmes de autor’. Aqui vi meus primeiros Bergman, Kurosawa, toda uma cinematografia importante, num momento em que ainda não havia as instituições culturais que temos hoje”, destacou.

Para Afonso, projetos como o Circular têm grande contribuição para que nos aproximemos desse patrimônio e dessa história: “A importância do projeto Circular, como movimento da sociedade civil organizada, é justamente entender que a salvaguarda do patrimônio, o restauro, deixar esse legado para as novas gerações, não deve ser trabalho só de um governo ou de um poder econômico ou político. É necessário que seja um projeto em que a sociedade volte a se reconhecer como dona do patrimônio que lhe foi dado; exigir que volte a funcionar, que tenha função social.”

Afonso completou: “É didático que a gente faça esses passeios durante o Circular num patrimônio em que a gente vê, no entorno, três séculos, pelo menos, se deteriorando a olhos vistos. Falo dos donos desses prédios, das lojas, sem nenhum olhar para essa história. E, se houvesse isso, valorizaria muito os negócios dessas pessoas. A gente não pode falar em conservação sem que a sociedade esteja educada para tomar conta disso.”

Imóvel na Rua 7 de Setembro

Educação e o cuidado com o patrimônio

Há quem já esteja em busca de conhecer melhor a própria cidade e suas histórias, como a cabeleireira Kátia Cristina Moreira, o servidor público Elvis Miranda e o filho João Artur Moreira de Souza, estudante do 4º semestre de Jornalismo. Eles saíram de Icoaraci e levaram até cadeirinhas para um passeio pelo centro de Belém, para observar com tranquilidade cada lugar.

“Belém é tão bonita e a gente passa despercebido por ela. Venho com frequência ao centro, mas a Capela Pombo, eu desconhecia isso. Até para a gente, que tem uma certa idade, é uma novidade”, disse Elvis.

Kátia ficou impressionada com o prédio de uma loja de tecidos, apontado na visita guiada do Rolé Belém e Roteiros Geo-Turísticos: “Eu jurava que era arquitetura portuguesa, mas disseram que é turca. Eu gostaria de passear todo domingo no centro para ver essas coisas.”

A psicóloga Jussara Melo, o professor André Melo e o filho Pedro, de 13 anos, fizeram uma viagem no tempo, em momentos importantes da nossa história, ao visitar o Complexo Mercedários. “A gente está tendo a oportunidade de ver as estruturas e o que aconteceu com elas ao longo da história, num lugar onde ocorreram conflitos da Cabanagem”, disse Jussara.

“Depois das aulas públicas de que a gente já participou, sempre que passo pela frente de certos casarões, fico pensando qual a história que aconteceu ali. Pensei nisso quando visitamos, por exemplo, o Palacete Faciola. Quando passo em frente aos casarões que ficam em frente à Estação das Docas e vejo muitos deles fechados com tijolos, me dá uma dor”, contou André.

“Recentemente houve a demolição das casas na Senador Lemos, que me levou até a uma discussão em família, quando disseram que o dono tem o direito de derrubar. É uma dor, porque vai chegar um dia em que a cidade vai estar desconfigurada e sem história. Por isso a gente sempre traz nosso filho, para que a gente possa transmitir para ele o que a gente recebe, e ele possa levar para frente”, completou o professor.

Ao caminhar pela Campina, a jornalista Tayana Narcisa guardou o recado para levar adiante: “Fazer esse roteiro mostra o quanto Belém é maravilhosa e a gente acaba não percebendo os pontos interessantes da cidade, a riqueza de cores, cheiros e histórias”, comenta.

Esse roteiro, para ela, traz valorização, mas também traz consciência de quanto “é necessário a gente precisa cobrar mais responsabilidade do poder público, enquanto cidadão, para um cuidado maior com o nosso patrimônio. Muito do que a gente visitou são patrimônios tombados, mas ainda necessitam de um cuidado maior e de restauração”, conclui.

Reportagem: Aline Monteiro | Edição: Luciana Medeiros | Fotos: Redação Circular
default

Vem circular e celebrar o patrimônio cultural

2 anos atrás

3fbbcb_bdc71bd9b8b5405f9873f0391244c3e2~mv2

Circular realiza edição para ficar em casa

6 anos atrás

3fbbcb_00f9137fed484916aa32ecac8a761a47~mv2

Obras do Solar da Beira trazem descobertas

6 anos atrás

Nós vamos sorrir! No centro da imagem, Makiko Akao, fundadora do projeto e a atual equipe gestora do Circular - Luci Azevedo, Luciana Medeiros e Adelaide Oliveira. Foto: Cláudio Ferreira

A força feminina Circular e o 8M no centro histórico

5 meses atrás

3fbbcb_55af654421fe45e59ce613a482e13c5d~mv2

Circular de volta em formato híbrido

5 anos atrás

8

Circular mapeia memórias sobre o Centro Histórico em oficina

17 horas atrás

Assine nossa news e receba todas as novidades sobre o Projeto Circular