Este lugar é o Casarão do Boneco, nosso ponto de partida para uma série de 05 reportagens sobre casas, casarões ou simplesmente imóveis que resistiram ao longo do tempo, no centro histórico de Belém. Além da arquitetura edificada, queremos saber também das histórias invisíveis que as sustentam até hoje.
A primeira parada nos leva para um outro tempo, na reportagem de Aline Monteiro.
Entre o final do século 19 e início do século 20, a antiga Estrada de São José, que ligava a Cidade Velha até o convento de São José, hoje Espaço São José Liberto, e que estava mudando sua configuração.
Já tinha se transformado na Avenida 16 de Novembro, em referência à adesão do Pará à República, e passava por um processo de urbanização, com novo calçamento e o surgimento de novos imóveis, impulsionados pela prosperidade alcançada com a exploração da borracha na região.
Estima-se que seja fruto deste período o casarão que ocupa o número 815 da avenida – possivelmente de 1903 -, com características de uma arquitetura eclética e elementos da fachada que remetem ao neogótico, como a moldura em formato de ogivas nas janelas.
É lá onde há mais de 20 anos funciona a sede do coletivo artístico Casarão do Boneco. Gerido de forma independente por diferentes grupos teatrais, o espaço é ocupado com espetáculos, exposições, cursos, como lugar de ensaio e colaboração entre artistas da área cênica, mantendo suas portas abertas e conectado à comunidade a partir da arte.

Ocupando o casarão
Esse momento atual na história do Casarão remonta ao início dos anos 2000, com a Cia In Bust Teatro com Bonecos, então um grupo já bem estabelecido na cena teatral, e sua busca por uma sede que pudesse abrigar especialmente o acervo dos vários espetáculos.
“A gente já tinha um repertório e muita tralha que se dividia entre a minha casa, e a do [ator e bonequeiro] Aníbal Pacha, e pensávamos em ter uma sede. O Aníbal tinha um dinheiro guardado e queria investir num imóvel e a gente chegou num desenho do que queria: uma casa antiga, que tivesse uma certa configuração”, relembra o ator e diretor Paulo Ricardo Nascimento.
Desde o começo, a ideia era um imóvel que tivesse história, e ocupá-lo artisticamente para, assim, garantir sua preservação. “Depois de um ano procurando, um conhecido nos apresentou a Andréa Mendes, que era uma das donas da casa, e a gente pirou, eu, [a atriz] Adriana Cruz e Aníbal”, conta Paulo Ricardo.
A configuração, que permitia um grande salão na entrada, assim como um espaço aberto na lateral e um quintal, tinha aquilo que o grupo procurava para criar um local de espetáculos, de ensaios e acervo.
“Era uma casa de herança de família. Todos queriam vender, mas também não queriam que ela fosse derrubada. Não queriam vender para qualquer coisa. Primeiro foram entendendo para que ia ser usada. Foi tipo um ano de conversas e de negociação até conseguirmos comprar a casa”, relembra Paulo Ricardo.

Ex-proprietária traz lembranças da infância
A psicóloga Andréa Mendes, hoje parceira do Circular Campina com o projeto Boca da Terra, de alimentação viva, foi a última moradora da casa que pertenceu à família dela, e onde chegou a manter também seu consultório. “Eu nasci nessa casa, em 1970. Mas meus pais já moravam nela antes de eu nascer”, conta Andréa.
“Meu pai conseguiu comprar essa casa porque ganhou na loteria e completou com um financiamento. Era nosso único bem. É uma casa muito grande, com 70 metros de comprimento, tanto que o muro dos fundos dava para o Subsar [Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército, que fica de frente para a Praça Amazonas]. Era muito comum as crianças pularem o muro de lá do SubSar para pegarem sapoti, numa árvore imensa que tinha no quintal”, lembra Andréa.
O quintal era um mundo à parte e foi importantíssimo para a conexão que ela criou com a natureza.
“Tinha muitas árvores frutíferas, tinha ginja, abacate…e tinha muitos animais que meu pai cuidava. Infelizmente, a maioria ficava preso. Dentro de casa, tinha muitos passarinhos na gaiola. Meu pai era criador certificado de periquito australiano. Tinha um macaquinho, jabuti, tartaruga, um tanque com tilápias, guará, garça, frango, peru, pato… fora gato e cachorro”, relembra.

Tombada dentro do conjunto do centro histórico de Belém, a casa teve poucas alterações. Andréa conta que cresceu entre brincadeiras no imenso imóvel, que tinha à frente a área social, com duas grandes salas e, ao longo do corredor, cinco quartos enfileirados, de frente para o corredor lateral, o banheiro e uma grande copa cozinha, com acesso ao quintal.
“O porão não era habitável, não tinha altura para a gente ficar de pé”, destaca a psicóloga. “As minhas maiores memórias nessa casa são das brincadeiras com minha sobrinha mais velha, que tinha quase a mesma idade que eu e era minha grande amiga. E do meu pai cuidando da gente e dos bichos”, conta.
A casa foi construída para fins residenciais. E se manteve viva, com música, dança, que permeavam as festas de família. “Tinha um piano antigo nessa sala quando chegamos”, conta o ator.
Andréa lembra do piano que pertencia à irmã mais velha, Rosa Maria. “Poucas pessoas moravam de fato, mas tinha sempre muita gente, era muito movimentada, os compadres, comadres, agregados. Inclusive recebia festas de família, por ser grande. Meu casamento foi lá.”

Entre a insegurança e a falta de apoio aos artistas
Enquanto fundadora do coletivo do Casarão do Boneco, a In Bust iniciou os trabalhos por lá em 2003: abriu a sala da frente, que tinha sido dividida em compartimentos menores, recuperou o quintal e construiu lá um anfiteatro, reforçou parte do piso que tinha cedido, mexeu no telhado e compôs o jardim lateral que vai da entrada até os fundos da casa. Abriram no final de 2004, com a Semana de Bonecos.
Assim como o piano, desses tempos, o Casarão do Boneco herdou um espelho de cristal que ornamentava a sala principal. “Esse, o ladrão levou. Já entraram muitas vezes nessa casa e levaram muitas coisas”, lembra Paulo.
Nanan Falcão e Leonel Ferreira, também integrantes do coletivo, completam situando que a falta de segurança é uma questão do entorno. “Já tivemos épocas difíceis, em que várias pessoas foram assaltadas por aqui”, conta Leonel.
A insegurança é um desafio, refletem os atores. Mas para eles, não o principal. “É, sim, manter o casarão vivo, no sentido do movimento, do trânsito de pessoas. Porque a infraestrutura para que isso aconteça é magrela, fraquinha no sentido da grana para manter”, avalia Paulo Ricardo.
A casa voltou a ser invadida em janeiro deste ano e acabou ganhando uma outra configuração, adequada aos novos tempos: “Depois do último assalto, a gente preferiu investir na segurança: cerca elétrica, câmeras, sensores, do que comprar equipamento, que a gente precisaria para movimentar mais a casa. Mas para mantê-la, a gente precisaria ter algum recurso permanente. Não é um tipo de atividade lucrativa, é uma atividade gastativa”, diz, bem-humorado, Paulo Ricardo.
Acompanhem o Casarão do Boneco