A cidade também é direito das crianças

Abrigo de ônibus em Boa Vista (RR). Foto: PMBV

O direito à cidade está nos princípios do Projeto Circular Campina Cidade Velha. Mais do que agregar empreendedores criativos e reveber o público em suas edições, o projeto tem sido um disseminador de debates e reflexões sobre as formas de ocupar o espaço urbano, sem abrir mão do direito à memória e à cultura.

E isso também diz respeito à infância, que têm sido pensada dentro do projeto e contempladas em ações como o Circuitinho Circular, proposta para estimular os pequenos a circularem, conhecerem e fazerem parte da cidade em que vivem.

A preocupação em garantir às crianças o direito à cidade também está no cerne do trabalho da pesquisadora Regina Cintra, que acaba de lançar, pela Editora Dialética, o livro “Cidades que Abraçam Infâncias – O que é possível aprender com territórios que incluíram crianças em seus planejamentos urbanos”.

Em versões impressa, e-book e audiobook, a obra reflete sobre como o desenho das cidades impacta a vida das crianças e, por consequência, de toda a população. Resultado da pesquisa de Regina no mestrado em Políticas Públicas, o livro parte da avaliação de experiências exitosas em quatro cidades: Jundiaí (SP), Recife (PE), Boa Vista (RR) e Medellín (Colômbia).

Capa do livro e a pesquisadora Regina Cintra nas Intervenções e brinquedos em parte do morro da Comuna Medelin, Colômbia. Foto: divulgação

Publicação destaca soluções positivas

Regina explica que procurou reunir cidades com desafios bastante distintos. “Tem Jundiaí, uma cidade muito rica, com o IDH bastante alto, com uma superinfraestrutura. Já Recife é a segunda capital com maior desigualdade social, em que você tem de 20% a 30% da população vivendo em extrema pobreza, e que tem uma topografia muito específica, com mar, mangue e morro.”

Boa Vista, por sua vez, aparece como uma referência nacional em políticas para a primeira infância. “Quem estuda esse campo já a entende como a ‘cidade da Primeira Infância’.”

A pesquisadora também quis completar a pesquisa com um exemplo internacional, mas que estivesse mais próximo de nós, na América do Sul.

“Medellín é um caso de sucesso, que baixou o índice de mortalidade de 370 para 15 a cada 100 mil habitantes em 20 anos. É fonte de inspiração para muitos municípios, inclusive para Recife elaborar os seus Compaz (Centros Comunitários de Paz), equipamentos de altíssima qualidade”, destaca.

O livro reúne oito entrevistas com profissionais ligados ao planejamento urbano e ao desenvolvimento infantil. Entre eles, Vital Didonet, mestre em Educação e assessor para assuntos de políticas públicas da Rede Nacional Primeira Infância, e Santiago Uribe, arquiteto de Medellín, um dos responsáveis pela transformação urbana na cidade colombiana.

Além disso, traz ilustrações de Erika Teixeira e 70 fotografias. Tudo em linguagem acessível, com a intenção de aproximar o público das discussões sobre cidades e infâncias.

Parque em Jundiaí (SP). Foto: SMCult Judiaí

Olhar sobre a infância

Jornalista por formação, mas ativista desde sempre pelo direito à cidade, Regina foi migrando aos poucos para o campo acadêmico. Hoje atua como consultora na área de mobilidade e colabora para publicações segmentadas. Seus estudos, desde o começo, foram pontuados pela questão das infâncias. Pensar, então, a relação das crianças com a cidade foi um desdobramento natural.

Os questionamentos se intensificaram a partir da experiência pessoal, de não ver os filhos acolhidos nos ambientes públicos de São Paulo, cidade onde vive.

“Eu tinha feito uma pós em Infância, entre 2016 e 2017, e lá eu já fazia essa relação entre criança e cidade. Mas aquele olhar… Pensei muito sobre o aspecto da formação de cidadania. Quer dizer, como a criança, ocupando o espaço público, se relacionando com ele, o que aquilo diz a ela, que aquele lugar também é dela, buscando saber se ela se sente incluída ou excluída.”

Desde então, Regina vem acompanhando ações desenvolvidas por organizações com trabalhos consolidados e projetos em diferentes cidades, como a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, voltada ao desenvolvimento de políticas públicas para a Primeira Infância.

Regina achou uma convergência entre as experiências positivas: “Essas experiências têm em comum a maneira como aconteceram. Tem sempre a presença de um prefeito ou de um cargo de liderança que realmente abraça a ideia de fazer uma cidade que seja mais amigável, parcerias com organizações que têm programas muito exitosos e que têm uma escuta da comunidade.”

Em Recife (Pe), o projeto Mais Vida nos morros. Foto: Andréa Rêgo Barros

Para além dos parquinhos

Mas o que seria uma cidade que abraça as infâncias? Não se trata apenas de ter parquinhos disponíveis e bem cuidados, próximos aos locais onde acontece a vida cotidiana, embora eles sejam muito desejáveis.

Regina cita desde ambientes mais coloridos nas ruas e equipamentos urbanos que atendam às necessidades de crianças e seus cuidadores, até pensar o tempo dos semáforos para que uma criança possa atravessar a rua em segurança, passando por ter abrigos nos pontos de ônibus, pelo tempo dos deslocamentos e por calçadas adequadas.

“São elementos que impactam muito o dia a dia, a qualidade de vida, e podem evitar acidentes também. Há um número muito alto de sinistros, de mortes de crianças por atropelamento”, informa Regina.

No final, são decisões que trazem benefícios para a maior parte da população. “Até porque 87% da população brasileira vive em cidades. Então, se você alterar o que acontece nas cidades, impacta a qualidade de vida, a saúde física e psíquica de todo mundo.”

O LIVRO:

Cidades que Abraçam Infâncias – O que é possível aprender com territórios que incluíram crianças em seus planejamentos urbanos

Autora: Regina Cintra

Ilustrações: Erika Teixeira

Editora: Dialética / 2026

Número de páginas: 220

Vendas online: aqui

 

Texto: Aline Monteiro | Edição Luciana Medeiros | Fotos: divulgação
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