Geógrafa investiga como os processos de patrimonialização construíram a identidade de Belém e invisibilizaram referências negras.
Quem conta a história do Centro Histórico de Belém? Essa é uma das perguntas que orientam a pesquisa de doutorado da geógrafa Magaly Caldas Barros. Ao investigar o patrimônio negro da cidade, ela procura compreender como as políticas de preservação e os processos de patrimonialização ajudaram a construir uma narrativa oficial sobre Belém, enquanto outras memórias e referências culturais permaneceram invisibilizadas.
Partindo da geografia produzida na Amazônia, de autores brasileiros e internacionais e dos estudos sobre patrimônio histórico e patrimônio negro, Magaly procura mapear essas referências e entender como elas são percebidas por quem vive, trabalha e circula pelo Centro Histórico.
“A minha hipótese central é que todo esse processo de patrimonialização pelo qual o Centro Histórico passou opera como um instrumento de poder capaz de construir discursos identitários”, afirma a pesquisadora.
Desde 2011, Magaly integra o Grupo de Pesquisa Geografia do Turismo (GGOTUR), onde desenvolve estudos sobre Belém, educação patrimonial, centros históricos, políticas públicas e memória socioespacial.
Integrante do Fórum do Patrimônio do Pará e colaboradora do Circuitinho Circular, Magaly cita diferentes intervenções urbanas que, ao longo da história, ajudaram a construir uma determinada narrativa sobre o Centro Histórico.
“As requalificações urbanas pelas quais o Centro Histórico passou, como o Feliz Lusitânia, a Estação das Docas, processos mais antigos, como o aterramento do Ver-o-Peso e do Igarapé do Piri, e intervenções recentes, como a ampliação da Estação das Docas com o Porto Futuro II e a concessão de praças públicas à iniciativa privada, ajudam a construir um discurso identitário sobre Belém”, observa.
Segundo ela, a narrativa predominante ainda é a da fundação portuguesa da cidade.
“O que predomina é a narrativa do Feliz Lusitânia, da chegada dos portugueses e da formação territorial de Belém a partir de 1616. Mas existem outros sujeitos que fazem parte dessa história, que ocupavam esse território muito antes da chegada dos colonizadores e continuaram construindo essa cidade ao longo dos séculos”, ressalta.

A quem se destinam os patrimônios institucionalizados?
Para Magaly, esse processo também pode ser observado a partir dos chamados “patrimônios contestados”, que estimulam uma reflexão sobre quais referências culturais são preservadas e quais permanecem invisíveis.
“A gente pode fazer uma leitura crítica desse discurso patrimonial materializado na paisagem, que vai nos fazer pensar se devemos manter ou não essas narrativas como referências culturais ligadas à identidade de Belém e, de forma mais ampla, da Amazônia.”
Ela destaca que a patrimonialização não apenas constrói identidades, mas também influencia a forma como determinados espaços públicos são apropriados pela população.
“Esse discurso identitário age como instrumento de poder, mas também como uma ferramenta social e espacial, à medida que define a quem esses espaços são destinados.”
Como exemplo, Magaly lembra uma discussão iniciada pelo projeto Circular sobre o funcionamento dos museus públicos do Centro Histórico. Durante muitos anos, esses equipamentos permaneciam fechados justamente aos sábados e domingos, quando a maior parte da população tinha disponibilidade para visitá-los.
“Quando o Projeto Circular questionou por que os museus não abriam aos fins de semana, a pergunta era justamente essa: para quem esses espaços estavam abertos? Quem trabalha durante a semana consegue acessá-los? Quem tem disponibilidade para frequentar esses lugares onde se constrói o discurso identitário da cidade?”, questiona.

Patrimônios invisibilizados
Um dos resultados da pesquisa é a constatação de que o patrimônio negro permanece pouco visível nas narrativas oficiais sobre o Centro Histórico.
“Durante a pesquisa encontrei documentos e artigos que registram a presença de populações indígenas, principalmente Tupinambás e Pacajás, na região onde hoje ficam o Ver-o-Peso, o Forte do Castelo e a Feira do Açaí. Alguns autores identificam esse território como parte do Cacicado Marajoara, que funcionava como um importante entreposto comercial e migratório.”
Para ela, isso revela que a ocupação desse espaço é muito anterior à fundação portuguesa da cidade.
“É uma produção espacial construída há centenas de anos. Então por que começamos a contar essa história apenas a partir de 1616?”, provoca.
Segundo Magaly, essa construção da identidade oficial também contribui para um processo que a pesquisadora Mônica Conrado denomina de “desafricanização” da sociedade brasileira.
“É a invisibilização das práticas tradicionais dessas populações trazidas de forma forçada para esse território, o não reconhecimento dos territórios quilombolas e a deturpação de práticas culturais, religiosas, sociais e políticas. Em última instância, a gente chega à necropolítica, que promove o apagamento não apenas das referências desses sujeitos, mas dos próprios sujeitos.”

Educação patrimonial como caminho
A pesquisa reúne bibliografia sobre memória, identidade, patrimônio, produção do espaço e paisagem cultural, além de documentos do Iphan, do Departamento do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (DPHAC), legislação sobre o Centro Histórico de Belém, Plano Diretor e Plano de Desenvolvimento Turístico.
Como sua atuação está voltada à educação patrimonial, Magaly também realizou entrevistas com moradores e trabalhadores do Centro Histórico. As experiências desses participantes passaram a integrar o mapeamento do patrimônio negro da cidade.
Para isso, utilizou metodologias inspiradas no projeto Inventário Participativo, coordenado pela pesquisadora Maria Tereza Duarte Paes, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
“Pedi que as pessoas identificassem suas referências culturais a partir do conceito utilizado pelo Iphan. Depois vou qualificar essas respostas, organizando-as em categorias como objetos, celebrações, formas de expressão e lugares. A partir daí, buscarei compreender quais dessas referências podem ser relacionadas ao patrimônio negro em Belém.”
A tese de doutorado de Magaly Caldas Barros deverá ser concluída em 2027 e pretende ampliar o debate sobre memória, identidade e patrimônio, propondo novos olhares sobre sujeitos e territórios historicamente invisibilizados no Centro Histórico de Belém.
O que é patrimônio negro?
O patrimônio negro reúne lugares, práticas, memórias, celebrações, saberes e referências culturais relacionados à presença e à contribuição da população negra na formação da sociedade brasileira. Vai além de edifícios e monumentos: inclui também manifestações culturais, territórios, tradições religiosas, formas de organização comunitária e personagens históricos.
Na pesquisa de Magaly Caldas Barros, esse conceito orienta a investigação sobre como essas referências aparecem, ou deixam de aparecer, nos processos de patrimonialização do Centro Histórico de Belém e nas narrativas que ajudam a construir a memória e a identidade da cidade.