Um processo de partilha de histórias, pertencimento e memória marcou a oficina “Mapa do Afeto: memórias e referências simbólicas do Centro Histórico de Belém”, realizada pelo projeto Circular Campina Cidade Velha na noite da última quarta-feira, 19 de agosto.
A Praça do Carmo, na Cidade Velha, foi o lugar de encontro para moradores, trabalhadores e pessoas ligadas afetivamente a esse território compartilharem experiências em uma conversa conduzida pelas geógrafas Magaly Caldas e Nabila Pereira.
Ao longo de cerca de duas horas e meia, mais de 30 pessoas participaram da atividade, oferecida gratuitamente e aberta à comunidade. A conversa passou por conceitos de patrimônio cultural, identidade e referências culturais e convidou os participantes a relembrar lugares, festas, hábitos, práticas e fazeres que reconhecem como importantes para a memória coletiva dos bairros da Campina, Cidade Velha e Reduto.
“A gente falou sobre patrimônio cultural, foi uma oficina com base em metodologias e técnicas da educação patrimonial. Nós somos professoras de Geografia, então trouxemos também essa perspectiva. O que a gente sempre espera é esse diálogo, com a ideia de refletir sobre o patrimônio da cidade, para que a gente consiga cada vez mais preservar, pensar em políticas de salvaguarda”, explicou Magaly Caldas.
A fotógrafa Ursula Bahia, parceira do Circular por meio do Ateliê Jupati, foi uma das participantes que compartilharam histórias sobre a Cidade Velha. Ela lembrou a infância e a juventude vividas no bairro, a casa da família, o escritório do pai no entorno da Praça do Carmo e sua passagem pelo Colégio do Carmo, onde estudou. “Vivi essa praça quando ainda existia aqui um coreto”, recordou.

A artista de teatro e designer de moda Maria Cecília, de 33 anos, procurou a oficina justamente pela relação afetiva que mantém com a Cidade Velha. “Conhecimento sempre é bem-vindo, ainda mais sobre esse lugar pelo qual sou apaixonada. Tem muito das minhas vivências aqui. O pôr do sol que se vê da escadinha do Forte é o meu preferido, venho sempre aqui desde nova”, contou.
Entre suas lembranças estão ainda os blocos de carnaval que saíam da Praça do Carmo, as festas nas casas de show do bairro e a Trasladação, que costumava acompanhar com os amigos. Mas uma memória se destaca: o Auto do Círio.
“Isso para mim era fantástico, eu olhava com brilho nos olhos e pensava que um dia estaria ali. E se concretizou. Depois participei, ganhei papéis de destaque.”
A administradora Pâmela Ferreira é de Abaetetuba, mas viveu na Cidade Velha da infância à juventude, depois da chegada da família a Belém. Eles deixaram o bairro nos anos 1990, quando a insegurança passou a ser um problema. Hoje, morando em Ananindeua, ela mantém o vínculo com o Centro Histórico.
“A Cidade Velha me remete à infância, família, amigos, cultura, boas memórias. Estudei até o segundo grau no Colégio do Carmo. A Cidade Velha, para mim, é esse grande abraço de tudo que norteia nossas memórias, alegrias, choros, primeiros amores. Tudo que remete à Cidade Velha, faço questão de vir”, contou.

Ampliando o mapa de afeto e pertencimentos
Nem todas as referências surgidas durante a oficina estavam relacionadas aos monumentos ou lugares mais conhecidos do Centro Histórico. As narrativas trouxeram à tona práticas e manifestações culturais que permanecem vivas na experiência de quem frequenta e ocupa esse território.
Entre elas apareceram lembranças da peregrinação religiosa realizada por povos de terreiro pela Cidade Velha na Sexta-feira Santa, de uma festa ligada à tradição da Marujada mantida por famílias vindas de Bragança e da presença da escola de samba Deixa Falar.
Para a geógrafa Nabila Pereira, uma das facilitadoras da oficina, relatos como esses ampliam a própria compreensão sobre o território, inclusive para pesquisadoras como ela e Magaly Caldas, que há mais de 15 anos se dedicam ao tema.
“Fiquei muito feliz porque muita gente participou e falou de memórias que, inclusive, a gente não conhecia, e registramos no mapa. Então, é interessante fazer essa conversa. Houve pessoas de outros bairros também falando das suas memórias daqui. Isso é muito rico para a gente fazer esse registro dessas referências culturais que estão guardadinhas nas memórias das pessoas”, comentou Nabila.

Memória e laços de pertencimento
A oficina integra as ações de contrapartida social do Projeto Circular, patrocinado pelo Banco da Amazônia, por meio da Lei Rouanet e do Ministério da Cultura, e se conecta a uma das propostas que acompanham o projeto desde sua origem: aproximar a vizinhança e estimular o sentido de comunidade no Centro Histórico de Belém.
Essa ideia está na própria gênese do Circular, surgido a partir da articulação entre agentes culturais que moravam e atuavam na Campina, e vem sendo retomada em diferentes momentos de sua trajetória.
Um deles foi o livro “Mapa do Afeto”, lançado em 2020 acompanhado de um mapa impresso. A publicação, da qual Nabila Pereira também participou, reúne 19 entrevistas com pessoas de diferentes gerações e distintas memórias sobre o Centro Histórico.
A mesma perspectiva está presente no documentário “Histórias da Campina” (2025), realizado pela Associação Circular, com direção de Larissa Ribeiro, que costura histórias de pessoas que vivem, trabalham e constroem cotidianamente o bairro.

Agora, as referências reunidas durante a oficina darão origem a um novo registro. Segundo Magaly Caldas, os dados coletados serão tabulados e categorizados para a construção desse Mapa do Afeto do Centro Histórico de Belém.
Mais do que localizar pontos em um mapa, o processo revela uma cidade construída também por experiências que nem sempre estão inscritas oficialmente como patrimônio, mas permanecem vivas na memória de quem a habita, atravessa e reconhece como sua.
“A importância disso é compreender a cidade como um espaço nosso. Essas memórias que estão sendo guardadas demonstram o quanto a cidade é o nosso lugar como espaço de pertencimento. Não só a nossa casa, mas o espaço público. É pensar a cidade como um lugar de valorização e identificação”, concluiu Nabila.
Reportagem: Alice Monteiro | Edição: Luciana Medeiros