O Carnaval é um dos patrimônios culturais brasileiros com maior amplitude de expressões. Do maracatu, frevo aos afoxés, escolas de samba, blocos de rua, em todo canto é tempo de resistência festiva, de ocupar a rua com graça e sonho. Belém é uma dessas cidades em que a alegria carnavalesca pulsa em todos os territórios, incluindo os bairros do centro histórico.
As ruas estreitas da Cidade Velha viram surgir diversos blocos carnavalescos, muitos a partir da mobilização de artistas. Alguns se mantém no carnaval de 2026, outros são retomados como por exemplo o Afoxé do Guarda Xuva Axado (dos anos 80), que saiu em 2025 e já voltou a botar o bloco na rua este ano.
Mas a passagem das pequenas charangas para o carnaval de trios elétricos e blocos fechados, a partir de 2010, trouxe a preocupação com a dimensão segura e aceitável para a festa no centro histórico – tanto para o patrimônio material como para quem vive nos bairros.
Em 2019, um parecer técnico do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural, em entendimento acompanhado pelo Iphan, ponderou os impactos do crescimento do número de brincantes, do som e da presença massiva dos trios para os edifícios históricos, assim como a preocupação de não privatizar o espaço público.
A partir daí, surgiram orientações como o uso apenas de bandas e pequenos carros-som em vez de trios elétricos, e a passagem das programações de maior monta para a avenida Tamandaré. O processo teve acompanhamento dos órgãos de defesa do patrimônio e do Ministério Público.
Carnaval no centro histórico? Com bom senso, pode, diz PMB.
A secretária adjunta da Secretaria Municipal de Cultura de Belém, Hanna Sozinho, explica que a prefeitura tentou organizar a folia este ano, com um sistema on-line de permissões para eventos públicos, cruzando dados de todos os órgãos municipais envolvidos, o chamado “Sincronizado”. No caso do centro histórico, isso ajudaria a evitar programações inadequadas à área.
Servidor de carreira do Departamento de Patrimônio Histórico do Município, o arquiteto Jorge Pina sabe que achar esse ajuste entre o carnaval e o centro histórico não é simples: exige avaliação caso a caso.
“Não somos contra o carnaval… tem toda uma história, uma tradição. Fazer o carnaval no centro histórico é viável? Sim. Mas tem que ter todos esses cuidados. Lembro que houve um tempo, quando o bondinho estava funcionando, que levava a banda enquanto as pessoas iam atrás”, exemplifica.
“Uma das nossas preocupações é em relação à irreversibilidade dos equipamentos. Tudo que é colocado tem que ser desmontado, a limpeza da área, tudo é responsabilidade do produtor do evento”, completa Pina.
Na rua e com apoio dos trabalhadores da Cidade Velha
Um desses eventos é o Carnavalzaço, que reunirá quatro coletivos na Praça do Carmo, na terça-feira gorda de Carnaval, dia 17, entre as 14h e 22h: Fé no Batuque, Batuque do Mercado, Xibé da Galera e Filhos de Glande. Às 17h, o Filhos de Glande sai direção à Casa Apoena, parceiro da Rede Circular, onde rola o Baile da Glande, a festa à fantasia indoor.
O percurso é pela rua Dr. Assis, trecho da Tamandaré, acessando a rua São Boaventura. Depois da saída do bloco, começa a roda de samba na praça, prevista até às 22h, com Fé no Batuque e Batuque do Mercado. Uma das organizadoras, a produtora cultural Renée Chalu, do Filhos de Glande, explica que o formato foi pensado para caber nesse ambiente de forma respeitosa.
“É um carnaval de rua, vai ser banda de fanfarra, não tem nada mecânico, é percussão no chão. Vai ter samba de roda na praça. O evento foi informado aos moradores, articulado com a Associação dos Ambulantes da Cidade Velha e é também uma contrapartida para o comércio do bairro. São eles que estão organizando toda a parte de bar e venda de comidas na praça”, diz Renée.
Segundo a produtora, os coletivos solicitaram e todas as licenças e banheiros químicos à prefeitura. “Conseguimos as licenças mas sobre os banheiros químicos a gente teve resposta que só vão dar a metade da necessidade e agora a gente está vendo como conseguir o resto”.
Além da informação aos órgãos municipais, um apoio para a retirada do lixo foi articulado com catadores de recicláveis que atuam na Cidade Velha. “É mais uma forma de gerar renda para os trabalhadores que já fazem esse rolê por lá”, diz Renée.
Estatísticas
Até o fechamento deste texto, a Secretaria Municipal de Cultura de Belém não informou a quantidade de eventos de carnaval registrados no Sincronizado na área do centro histórico, nem se houve projetos não autorizados por inadequação às regras.
Serviço
Carnavalzaço – Praça do Carmo, na terça-feira gorda de Carnaval, dia 17, das 14h às 22h. Participação: Fé no Batuque, Batuque do Mercado, Xibé da Galera e Filhos de Glande. Cortejo às 17h, com o Filhos de Glande – Casa Apoena – Festa à fantasia indoor.
(Texto: Aline Monteiro / Edição: Luciana Medeiros / Fotos: acervos pessoais)