CADÊ O VERDE QUE ESTAVA AQUI?

Égua do calor!

Se estás em Belém, essa é uma frase constante nas conversas. E ela tende a se repetir cada vez mais nos próximos anos. A cidade, que está entre as menos arborizadas do Brasil, pode se tornar a segunda mais quente do planeta.

Quem caminha pelo Centro Histórico de Belém nas tardes de julho já sente na pele uma cidade mais quente. Entre ruas estreitas, pouco sombreamento e quilômetros de concreto, atravessar a Campina ou a Cidade Velha tornou-se um desafio diário.

O que parece apenas uma sensação é confirmado pela ciência: Belém pode se tornar, até 2050, a segunda cidade mais quente do planeta. Nos últimos dias, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada da ONU, elevou o alerta para a possibilidade de um forte episódio de El Niño em 2026.

O fenômeno, provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, deve intensificar ainda mais os efeitos das mudanças climáticas. A partir de agosto, estão previstas temperaturas acima da média em diversas regiões do planeta, em um cenário que pode se prolongar até 2027, agravando secas, chuvas intensas e ondas de calor tanto em terra quanto nos oceanos.

“O mundo deve tratá-lo como o alerta climático urgente que é. As condições de El Niño irão intensificar ainda mais o aquecimento global. Seus impactos serão mais severos, se espalharão mais longe e atravessarão fronteiras com velocidade devastadora”, declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Obra na Av. Rômulo Maiorana – Mais concreto, menos árvores – Foto reprodução/Agência Belém.

Impactos no Brasil e em Belém

O Brasil não está fora desse contexto, muito menos Belém. Desde 2023, um estudo da ONG norte-americana CarbonPlan, realizado em parceria com o jornal The Washington Post, aponta que, até 2050, Belém poderá se tornar a segunda cidade mais quente do planeta, atrás apenas de Pekanbaru, na Indonésia.

A estimativa é que a capital paraense passe dos atuais cerca de 50 dias de calor intenso por ano para uma média de 222 dias — um aumento de 344% em apenas 25 anos. O problema é que a cidade ainda está longe de estar preparada para enfrentar esse cenário.

“A preocupação é muito grande. Nós vamos passar por situações difíceis. Não sou alarmista, mas os dados que estamos tendo indicam que vamos enfrentar um final de ano com um cenário bastante crítico, com calor extremo no Norte e muitas chuvas no Sul”, afirma o doutor em Desenvolvimento Socioambiental e pesquisador do Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa), Júlio Cezar dos Santos Patrício.

O pesquisador apresentou um painel durante evento promovido pela agência Amazônia Vox, no último dia 3 de julho, na II Semana do Clima da Amazônia — encontro que acabou passando quase despercebido pelos belenenses, menos de um ano depois de a cidade ter concentrado as atenções internacionais com a realização da COP30.

A partir de pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Pesquisas da Arborização de Belém (Lapes/Cesupa), Patrício analisou a série histórica de temperaturas da capital paraense entre 1970 e 2025, com base em dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O levantamento identificou um aumento de 2,11°C na temperatura máxima média registrada na cidade, que passou de 31,87°C para 33,98°C. Para isso, foram comparados os registros de temperatura máxima em um mesmo dia — 30 de novembro — e no mesmo horário, entre 15h e 16h, considerado o período mais quente do dia.

Segundo o pesquisador, esse aumento está relacionado tanto às mudanças climáticas globais quanto à expansão das ilhas de calor provocadas pela redução da cobertura vegetal e pelo crescimento das chamadas estruturas cinzas — pavimentação, concreto e grandes edificações.

Dados do IBGE divulgados em 2025, com base no Censo de 2022, mostram que 54,53% dos moradores de Belém vivem em ruas sem nenhuma árvore. Outros 20,31% convivem com apenas uma ou duas árvores no entorno de suas residências. Como consequência, Belém aparece entre as capitais brasileiras com menor índice de arborização.

Campina – comércio no centro histórico de Belém. Foto: Jader Paes

Centro Histórico mais quente

No Centro Histórico, o cenário também preocupa. A Cidade Velha mantém apenas 19,9% de cobertura vegetal, índice que contribui para o aumento da temperatura e da sensação térmica. Na Campina, o problema é agravado pela intensa circulação de pessoas, pelo elevado fluxo de veículos e pelo calor liberado pelos sistemas de ar-condicionado do comércio.

“A ação humana, especialmente por meio da construção civil, tem grande impacto na formação de ilhas de calor, com concentração de concreto, grandes edifícios e asfaltamento. Como mitigar isso? Há estudos sérios que mostram que a arborização é um dos caminhos”, afirma Patrício.

O pesquisador cita como exemplo o novo projeto de urbanização da avenida Rômulo Maiorana, que amplia áreas pavimentadas. “Temos esse título sagrado de ‘Cidade das Mangueiras’, do qual tanto nos orgulhamos. Mas isso hoje é muito mais um discurso do que uma realidade”, diz. “Enquanto isso, cidades como Barcelona seguem o caminho inverso, retirando áreas asfaltadas e ampliando a cobertura vegetal.”

Segundo pesquisa do Lapes/Cesupa, ruas com cobertura vegetal superior a 40% podem apresentar temperaturas entre 10% e 15% menores do que vias praticamente sem arborização. O laboratório trabalha agora na construção de um modelo capaz de indicar quantas árvores, quais espécies e quais características de copa seriam necessárias para melhorar o conforto térmico em cada espaço urbano.

“Estamos desenvolvendo um modelo que relaciona arborização, temperatura e umidade. A ideia é chegar a um local e indicar quantas árvores são necessárias, quais espécies e qual tipo de copa proporciona o sombreamento adequado. Queremos criar um modelo algorítmico que possa servir para qualquer lugar.”

S.O.S Tucunduba – população denuncia grave degradação ambiental. Foto reprodução/Internet

Ações insuficientes e maior degradação

No último dia 9 de julho, a Prefeitura de Belém lançou o programa Plante Aqui, que permite aos moradores solicitar gratuitamente o plantio de árvores por meio do WhatsApp. A proposta prevê avaliação técnica da Secretaria Municipal de Meio Ambiente antes da implantação das mudas. A meta é plantar cinco mil árvores até o fim de 2026.

A prefeitura também informa que vem implantando jardins de chuva — canteiros projetados para absorver parte da água das chuvas, reduzir alagamentos e contribuir para o conforto térmico. A solução integra o conjunto das chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN), adotadas em diferentes cidades para adaptação às mudanças climáticas.

A questão é saber se iniciativas pontuais serão suficientes diante do avanço das transformações urbanas e da continuidade de intervenções que reduzem áreas verdes, muitas delas promovidas pelo próprio poder público.

Enquanto isso, neste último domingo, 12 de julho, lideranças comunitárias e moradores da Bacia do Tucunduba divulgaram uma nota pública manifestando “repúdio à grave degradação ambiental” provocada, segundo eles, pelas obras do Parque Linear.

“É profundamente contraditório que um projeto apresentado como parque ambiental resulte na destruição da vegetação existente”, afirma o documento, publicado pelos perfis @sostucunduba, @coletivolutarsempre, @os.tamuatas.do.tucunduba, @defensoresdosriosurbanos e @tela_firme.

O texto também chama atenção para o racismo ambiental. Além da perda ambiental, essa intervenção evidencia uma grave situação de racismo ambiental, uma vez que os impactos negativos recaem principalmente sobre comunidades periféricas e historicamente vulnerabilizadas, que dependem diretamente das áreas verdes para amenizar o calor, reduzir alagamentos, preservar a biodiversidade e garantir melhores condições de saúde e bem-estar.”

Outro tema que passou a preocupar pesquisadores foi o anúncio da implantação de um data center na avenida Arthur Bernardes, fruto de parceria entre a Axia Energia e a Elea Data Centers. “É um assunto importantíssimo e preocupante. Os data centers vão precisar de muita água doce e de espaços naturais para troca de calor. É preciso estudar melhor essa questão para fazer uma análise”, afirma Patrício.

O empreendimento reacende o debate sobre seus impactos ambientais, como o elevado consumo de água para resfriamento, a geração de calor, a poluição sonora e a concentração desse tipo de infraestrutura em áreas periféricas da cidade.

Reportagem: Aline Monteiro | Edição: Luciana Medeiros
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