Na terceira reportagem da série sobre casas, casarões, imóveis e suas histórias, no centro histórico de Belém, chegamos na casa ocupada pelo Instituto Iacitatá, alimentação, cultura e ativismo indígena confrontam simbolicamente a história da colonização no núcleo inicial de Belém.
Foi diante de uma adversidade que a história de Tainá Marajoara e Carlos Ruffeil com a Cidade Velha começou. Cozinheiros à frente do Ponto de Cultura Alimentar Instituto Iacitatá Amazônia Viva, eles chegaram ao imóvel na esquina da Praça Frei Caetano Brandão com a rua Siqueira Mendes num dia em que tudo parecia dar errado.
“A gente estava numa casa no Reduto, na Benjamin entre Aristides Lobo e Ó de Almeida, que tinha uma situação de telhado muito precária, e que a gente não sabia quando alugou. Começou a chover dentro da casa. Até que um dia o telhado arriou uma parte. Noutro dia, alagou tudo, e a gente nem conseguiu voltar para casa”, relembra Tainá.
“Decidimos vir para a praça das Onze Janelas ficar no carro, e esperar a chuva passar, e só voltar para encaixotar as coisas. A gente desceu, foi tomar uma água de coco, sentou no banco da praça do chafariz e, quando olhamos, estavam colocando uma placa de aluga-se nessa casa”, conta a ativista indígena.
O imóvel estava em mau estado, mas havia ali a possibilidade de ocupar um casarão antigo no primeiro bairro de Belém e, naquele momento, pagar um aluguel mais barato. Eles decidiram ficar e foram fazendo as reformas necessárias. Entre 2015 e 2020, conseguiram alugar apenas o andar superior, enquanto o térreo permaneceu com outro inquilino. Mais tarde, conseguiram financiamento e compraram o imóvel.
A aquisição permitiu que uma relação inicialmente circunstancial com aquela esquina se transformasse em outra coisa. A casa passou a abrigar um projeto cultural, alimentar e político que os dois já vinham construindo.

O que se faz na casa
Como Iacitatá, o espaço abriga um restaurante dedicado a uma cozinha amazônica construída a partir da sociobiodiversidade da região, da agroecologia e da agricultura familiar. Ali também funciona um biomercado articulado a uma rede de produtores de alimentos de territórios indígenas, quilombolas, coletivos e assentamentos.
A casa abriga ainda a escola Araksawa, onde são realizados cursos relacionados aos propósitos que orientam o instituto. É através dos alimentos, portanto, que boa parte das relações estabelecidas pelo Iacitatá com diferentes territórios amazônicos chega àquela esquina da Cidade Velha.
A localização acrescenta uma camada particular ao trabalho desenvolvido ali: o instituto está instalado justamente na área reconhecida como núcleo inicial da colonização portuguesa de Belém.
“Aqui as pessoas chamam de Praça Frei Caetano Brandão, mas nós chamamos de Praça Guaimiaba, num território que era Tupinambá. A gente está dentro dos casarões, mas pisando em terra indígena”, diz a ativista indígena diante da única casa pintada de barro na área, a partir de um projeto de permacultura.

Descobertas na arquitetura
Habitar um imóvel antigo também fez Tainá e Carlos descobrirem aos poucos a própria casa. Em abril deste ano, com ajuda de uma pesquisadora da Faculdade de Arquitetura da UFPA, eles conseguiram localizar um projeto do imóvel e descobriram que sua estrutura colonial havia sido modificada na primeira metade do século 20, quando a fachada ganhou linhas mais retas.
“Ela é uma obra do [engenheiro e arquiteto] Camillo Porto de Oliveira”, diz Tainá. Um dos nomes importantes da arquitetura moderna em Belém, ele participou da criação do curso de Arquitetura da UFPA, em 1964, e deixou mais de uma centena de projetos, entre residências, edifícios, reformas e ampliações de imóveis. Morreu em 2005. Vieram outras descobertas.
“A gente também descobriu que ela tem arcos. Quando a gente olha ela de frente, parece que tem dois andares. Mas na verdade ela tem três. A partir do teto do segundo piso, tem uma altura habitável e tem arcos que acompanham a fachada, tanto na frente quanto na lateral, que foram fechados durante essa reforma feita pelo Camilo Porto. Nosso sonho é reabrir todos esses arcos, essas janelas, e criar um mirante”, completa.
Algumas dessas revelações, no entanto, aconteceram da pior maneira. Já durante a pandemia, segundo Tainá, um aterramento realizado na rua Siqueira Mendes teria prejudicado o escoamento das águas pluviais, provocando infiltrações na parede lateral do imóvel.

Parte da casa acabou cedendo.
“A umidade acabou arriando uma parte da casa. Como era pandemia, não havia ninguém lá. Tivemos que reconstruir uma parte, refazer a fundação. Mas para isso fizemos um mutirão, fomos às redes sociais, pedimos apoio. Conseguimos o apoio do arquiteto Joaquim Meira, que nos doou a planta da casa e fez todo o projeto para restaurar a casa”.
A manutenção continua sendo uma das dificuldades de permanecer no imóvel. Tainá critica a ausência de fiscalização e de ações de conservação do Centro Histórico e aponta problemas relacionados ao trânsito e à poluição sonora, que, segundo ela, também impactam os casarões.
“A negligência e a falta de fiscalização sobre o Centro Histórico é brutal, a falta do cumprimento das leis, do Código de Posturas”, afirma. “Fizemos inúmeras notificações à Prefeitura de Belém, ao Iphan e ao Governo do Estado. Mas nenhuma instância tomou qualquer atitude de prevenção de dano ao patrimônio histórico e prevenção de risco à vida”, diz Tainá.
Curiosamente, os próprios danos também fizeram aparecer vestígios das diferentes épocas atravessadas pelo imóvel. “Cada vez que há uma trepidação e cai uma parte do reboco, a gente vai descobrindo um pouco da história da casa. É terrível, pelo dano, mas acabamos descobrimos coisas como o fato de boa parte da casa ainda ser de pau-a-pique, de entrelaçamento de madeira com barro e cola de mariscos”, diz Tainá.
As dificuldades e o custo elevado da manutenção já fizeram o casal pensar em desistir do imóvel, mas a permanência tem um significado que ultrapassa a propriedade da casa, segundo Tainá. Para ela, ocupar um imóvel como esse é também dizer que “esse território é nosso”.