A descrição de Lourdes Barreto em seu perfil do Instagram @soulourdesbarreto não poderia ser mais precisa: 83 anos na luta por direitos humanos. Sim, porque foi esse o sentido que ela escolheu para a vida, em especial no ativismo pelos direitos das mulheres e das putas.
Trabalhadora do sexo desde os 15, quando fugiu de casa, no interior da Paraíba, após sofrer um abuso, ela foi fundamental num movimento nacional por condições dignas de trabalho para as mulheres prostitutas, inclusive para as políticas públicas de saúde.
Seu papel e consciência de classe surgiram desde quando, já no bairro da Campina, em Belém, onde chegou nos anos 1950, batia o pé com as “madames” dos prostíbulos por condições mínimas, como alimentação e acesso à higiene. Histórias que ela conta em sua autobiografia “Lourdes Barreto: Puta Biografia” (Editora Paka-Tatu), lançada em 2023.
Lourdes construiu parcerias na Pastoral da Mulher Marginalizada, da Igreja Católica, e foi participando cada vez mais de debate nacional. Fundadora do Grupo de Mulheres Prostitutas do Pará – Gempac e nome importante para a construção da Rede Nacional das Prostitutas, nos anos 1980, Lourdes foi uma das três brasileiras que entraram da lista das 100 mulheres mais influentes de 2024, construída pela rede BBC.
Trajetória será homenageada na avenida do samba
Lourdes está no Rio de Janeiro, nos últimos ensaios e preparativos de fantasias para participar do Carnaval, desfilando pela Escola Porto da Pedra. A agremiação, que concorre na Série Ouro do carnaval carioca, leva este ano à avenida o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, em que vai abordar o universo das profissionais do sexo. E Lourdes será uma das grandes homenageadas.
“O carnavalesco da escola me viu no Programa do Bial e se interessou de levar esse tema para a avenida. Conversou com a direção da escola e resolveu conversar comigo e outras companheiras do movimento para ir para a avenida”, contou por telefone, do Rio de Janeiro, em meio aos ajustes finais para o desfile.
Nesta quarta-feira, 11, ela participou do último ensaio na escola, ao lado da escritora Raquel Pacheco, conhecida nacionalmente como Bruna Surfistinha, além da atriz Elisa Sanches, e coletivos ligados à luta pelos direitos das profissionais do sexo. “Nosso papel é contar essa história. Essas mulheres não são personagens, são vidas reais, com trajetórias, dores e conquistas. A presença delas aqui mostra que estamos construindo esse Carnaval da forma certa”, disse o presidente da escola, Fabrício Montibelo.
O sentimento agora é de ansiedade, pois Lourdes quer fazer bonito na avenida. “A gente está muito feliz com isso porque Carnaval é cultura, é desenvolvimento humano, e também podemos refletir sobre os problemas que tantas mulheres, ainda hoje, diariamente são vítimas de violência. A gente precisa empoderar as mulheres”, destacou.
Do Boêmios da Campina à avenida do samba
Não será a primeira vez que Lourdes Barreto inspira a folia carnavalesca. Em 2023, quando completou 80 anos de vida, ela desfilou pela escola Piratas da Batucada, de Belém, que defendeu o enredo “Um rendez-vous de grandes mulheres”.
O desfile foi uma exaltação às mulheres, que trazia a ala Puta Day como um dos destaques, em referência à luta das prostitutas por direitos, e Lourdes como uma das homenageadas. “Foi muito importante para nós”, para o Grupo de Mulheres do Estado do Pará”, relembra Lourdes.
Vivendo no bairro da Campina desde os anos 1950, quando chegou a Belém, Lourdes Barreto construiu seus afetos, amores, amizades, família. Criou filhos, netos. Hoje já tem bisnetos. Ela lembra também desse espaço em outros tempos, onde a boemia fazia parte da identidade de lugar, e o carnaval era tempo de muita alegria.
“No bairro da Campina, tivemos carnavais animados. Desfilei por muitos anos no Boêmios da Campina. Ajudamos a colocar o Boêmios na avenida muitas vezes, as putas do Quadrilátero do Amor (região onde se concentravam os prostíbulos). Várias mulheres vinham para a avenida. A Campina é meu coração, minha história de vida.”, disse Lourdes.
Para ela, levar esse tema ao carnaval tem muito sentido. “Discutir a prostituição é uma história imensa e um direito. A gente não vai pra avenida para fazer apologia, mas para dizer que a mulher pode ser o que ela quiser. Puta, professora, médica, advogada, trabalhadora doméstica… desde que ela tenha o direito de ser cidadã como outro qualquer. A luta é uma luta coletiva, por direito, de igualdade de gênero.”
Texto: Aline Monteiro / Edição: Luciana Medeiros / Fotos: Reproduções/Internet