Circular movimenta a Belém criativa e ressalta o patrimônio

Feira Jenipapo. Foto: Otávio Henriques

Um domingo iluminado pelo clima junino e muita criatividade. Uma grande frequência de público registrada pelos 44 espaços que estiveram abertos – somente o Complexo Mercedários, na Campina, por exemplo, recebeu mais de 700 pessoas ao longo do domingo. Foi um dia intenso, encerrando a programação às 20h.

O dia reuniu diferentes gerações, que fizeram valer seu direito à cidade, entre encontros afetivos e também na mobilização em torno da memória cultural de Belém. O Palácio do Commercio, da Associação Comercial do Pará, fez sua estreia no circuito, apresentando duas exposições inéditas ao público no Salão Nobre.

Para a ex-presidente e atual diretora fiscal da ACP, Elizabeth Grunvald, que coordenou a programação, integrar o grupo de parceiros desta edição trouxe à instituição um público novo, ajudando a contar a história da associação para que os paraenses se apropriem e valorizem essa memória.

“Recebemos pessoas que nunca tinham estado nas nossas instalações ou tinham tido acesso a detalhes da nossa história. Foi muito bom”, avalia Grunvald.

Outro estreante foi a Feira Jenipapo, que, em conjunto com a Feira D’Rocha, ocupou o Espaço Cultural Mairi, na Praça do Carmo, com mais de 63 expositores, entre artistas gráficos e artesãos. Até o final da tarde, o lugar ficou bastante movimentado, garantindo boas vendas aos participantes.

“Tem muitos artistas independentes expondo pela primeira vez, que às vezes nem vendiam, mas perceberam que a feira podia ser um caminho e se inscreveram na curadoria. E é uma produção muito variada, de estética também, cada um tem sua identidade”,  disse a ilustradora Thay Petit, idealizadora da Jenipapo.

“Isso torna a Jenipapo um evento criativo que consegue apresentar ao público essa cena, que, quando encontra uma ação coletiva como o Circular, ganha mais força”, conclui Petit.

Segundo a ilustradora, era uma ideia já acalentada trazer o evento – já realizado em espaços como a Casa da Linguagem e a Vila Container – para dentro do Circular, que, ela analisa, deu outra amplitude à Jenipapo. “Já temos um público consolidado enquanto evento, mas acho que encontramos aqui um público novo com o qual também somos capazes de dialogar, pessoas que consomem arte”, considera.

Visita do Roteiros Geo Turísticos às obras do Cine Olympia. Foto: Olivar Jr.

O patrimônio é nosso!

Esse empenho coletivo pela memória, ganhou ênfase com ações envolvendo dois patrimônios da cidade de Belém, importantes também para o resto do país, por seus históricos e significados patrimoniais.

Na Campina, o Cine Olympia foi destaque na caminhada realizada pelo projeto Roteiros Geo-Turísticos, da Pós-Graduação em Geografia da UFPA. O percurso, inspirado pela Belle Époque, teve início no cinema mais antigo em funcionamento do Brasil, situado na Avenida Presidente Vargas, como ponto central.

Ainda em obras de restauro, com previsão de reabertura no segundo semestre, o Cine Olympia foi local de partida para a caminhada que reuniu cerca de 100 pessoas na manhã do domingo. Elas puderam entrar no cinema e ouvir a fala de Marco Antonio Moreira, professor do curso de Cinema da UFPA, e da arquiteta Beth Almeida, do Instituto Pedra, responsável pelo projeto de restauro.

A entrega da obra está próxima e uma questão que vem gerando preocupação entre artistas, realizadores e pesquisadores. A expectativa gira em torno da gestão do cinema.

“Até o momento, a prefeitura não se posicionou quanto à questão.  Em uma entrevista coletiva à imprensa, em abril, a secretária de cultura disse que não havia ainda nenhum caminho definido para o funcionamento, após a finalização da requalificação”, diz Luciana Medeiros, coordenadora de comunicação do Circular.

Também pesquisadora e documentarista, Luciana apresentou no XV Seminário da Casa de Rui Barbosa, em maio, no Rio de Janeiro, sua pesquisa sobre requalificação de prédios históricos e governança cultural, abordando o caso do Cinema Olympia e modelos de gestão em casos semelhantes no país.

“Há casos no Brasil que demonstram experiências de fechamento por falta de gestão, como o Cine Ipiranga, em São Paulo, e de êxito, como o Cine São Luiz, em Fortaleza, restaurado e em atividade. Em Belém, o Olympia estará requalificado e precisa funcionar de forma regular e com propostas de ocupação que dialoguem com a cidade e a cena de cinema local.”, conclui.

No domingo, um S.O.S Mabe. Foto: Luciana Medeiros

Aproveitando a movimentação do Circular, artistas e ativistas culturais também envolveram o MABE – Museu de Arte de Belém – em um grande abraço, chamando atenção para a situação atual de precarização da instituição, vinculada à administração pública municipal.

Em outra reportagem veiculada no site (https://projetocircular.org/mabe-um-museu-que-agoniza/), ouvimos a artista visual e ex-diretora do MABE. “A Semcult não absorveu o MABE na sua integridade enquanto unidade museológica… Com isso, a instituição ficou em estado de total vulnerabilidade e impedida de cumprir plenamente sua missão”, destacou Nina Matos.

Centro histórico protagonista

Para a diretora de Produção do Circular, Adelaide Oliveira, mais uma vez foi o Centro Histórico de Belém que brilhou na programação. Em sua análise, a presença marcante do público, num fim de semana antecipado pelo feriado de Corpus Christi (na quinta-feira, 4 de junho), mostra que a população de Belém tem o desejo de ocupar criativamente esse espaço, com alegria e respeito ao patrimônio que é coletivo.

Por isso, foi uma das preocupações da equipe de produção, como em todas as edições, a limpeza dos espaços públicos e a distribuição de lixeiras. “Essa é uma coisa que a gente faz em parceria com os moradores”, contou Adelaide, reforçando a participação dos moradores do Beco do Carmo nesse processo, em que também atuam na venda de bebidas na Praça do Carmo.

Caso de Leonor Cruz, que mora na Cidade Velha, no Beco do Carmo, e trabalha em eventos há 18 anos. “É uma bênção o Circular, a gente consegue vender bem, é mais renda. Esse é um trabalho da gente. Quando não tem evento, não tem como vender, a gente fica sem comer. Eu amo a Cidade Velha, não só morar aqui, mas é onde eu trabalho. E ver essa movimentação aqui é muito bom.”

Beth Grunvald guiando a visita ao Palácio do Commercio. Foto: Otávio Henriques

As edições do Circular renovam o sentido do projeto, acredita Adelaide. “Apesar de a gente fazer isso há mais de 60 edições, toda vez é uma surpresa. Sempre provoca uma nova emoção, de pessoas que já circulam, mas se permitem conhecer um espaço novo; de espaços novos que abrem”.

“É impossível não falar da alegria de ter o Palácio do Commercio, uma edificação de tantos anos. É muito emocionante ter o Grêmio Literário, que fez uma programação piloto em abril e agora aderiu definitivamente. E espaços que têm uma estrutura menor, mas que persistem, acreditam”, diz.

O próximo Circular Campina Cidade será no dia 02 de agosto. Patrocínio Banco da Amazônia, via Lei Rouanet e Alubar, com apoios da Lojas Renner e UFPA, por meio do Fórum Landi e do Mercedários-UFPA. Este ano, o projeto também vai realizar o 5o Fórum Circular – Patrimônio, Sustentabilidade, Cidadania. Para saber mais sobre as ações do projeto, siga também no Instagram o @circularcampinacidadevelha

Texto: Aline Monteio | Edição: Luciana Medeiros
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