Nas paredes da casa localizada no número 267 da rua 28 de Setembro, bem próxima à avenida Presidente Vargas, estão fotos da família que, em outros tempos, fez daquele lugar o seu lar. Hoje, o endereço é comercial, mas a placa na porta, da loja de perfumaria e cosmética Chamma da Amazônia, remonta a esse passado. Essa é a quarta reportagem da nossa série Histórias do Centro Histórico de Belém.
Este ano, o espaço entrou oficialmente nas edições do Circular Campina Cidade Velha e estará aberto neste domingo, 18 de outubro, das 9h às 13h. Para além da loja, foi nessa casa, como conta a diretora da empresa, Fátima Chamma, que ela viveu sua adolescência e parte da vida adulta. Foi também onde os pais se despediram.
E foi para onde ela voltou, há dois anos, para inaugurar uma nova fase de memórias nesse lugar. Após a morte da matriarca da família, Maria Amélia, há 22 anos – o pai, Oscar, já tinha morrido há cerca de 30 anos -, a casa foi vendida. Mas, de uma maneira inusitada, a empresária acabou alugando exatamente a antiga casa da família como ponto comercial para montar sua base.
“Eu estava procurando um novo imóvel para a Chamma. Não necessariamente no centro, procurei em toda a cidade. Mas não achava: ou o preço não era bom, ou não tinha o que a gente precisava, sempre tinha algum problema. Um dia, eu e minha filha Daniela viemos ver uma casa na Manoel Barata, mas que não estava boa. E passamos por aqui, porque ela queria ver a casa da avó. E tinha uma placa de aluga-se na frente”, diz Fátima.
O proprietário permanecia sendo o mesmo para quem a família Chamma tinha vendido o imóvel, e as tratativas foram rápidas. No dia seguinte à conversa, Fátima retornava ao endereço onde agora funciona o negócio criado pelo pai, que mantém uma identidade profundamente ligada aos insumos amazônicos e à cultura da região, e atualmente integra a rede de parceiros do projeto Circular Campina Cidade Velha.
Hoje, no local, a loja funciona de segunda a sexta, de 9h às 18h, e aos sábados, de 9h às 14h, oferecendo perfumaria de uso pessoal e de ambientes, linhas de manutenção corporal e spa, com a ideia de produtos exclusivos e com storytelling.
“Eu fiquei muito feliz de voltar. Sempre fui ligada a essa casa. Foi literalmente uma sensação de voltar para casa. Quando eu entro aqui, a sensação é de que eu nunca saí”, revela Fátima. “Cada um da família que vinha aqui, chegava, se emocionava, e chorava”, completa.
Imóvel viu a história da família crescer
A empresária relembra que a casa pertencia a um casal de portugueses que viviam oferecendo o imóvel ao pai dela, Oscar Chamma. Até que ele decidiu comprá-la.
“Papai tinha o King Hotel, que funcionava no edifício Fátima, ao lado, e vinha sempre aqui. O casal ficava na janela e dizia sempre: ‘Seu Oscar, compre a casa’. A gente morava no quarto andar do edifício Dias Paes, na Presidente Vargas, que hoje é o Banpará, e que naquela altura era misto de residências e escritórios. E fiquei doida [pela casa]”, relembra Fátima.
“Quando papai a comprou, na década de 1960, eu devia ter uns 10 anos e a casa era bem nova. Eu escolhi os móveis, tudo. A casa ficou pronta, com armários, cama, telefone… e ficou fechada, porque ele não gostava de mudança. Aí eu, aos 13 anos, muito cabelinho na venta, arrumei uma mochilinha, uma cafeteira elétrica, um fogareirinho, disse que ia me mudar e vim me embora para cá com a minha melhor amiga. Quando foi no meio da semana, meu pai veio para a casa”, conta.
A família se estabeleceu com os seis filhos e mais cinco secretárias. Mas os negócios da família, incluindo a perfumaria que Oscar Chamma criou informalmente ainda nos anos 1940 e oficializou como empresa em 1964, nunca funcionaram lá. Na época, a loja ocupava um ponto nos altos do Mercado de Carne, no Ver-o-Peso.
“Foi uma casa sempre com uma energia muito boa e continua sendo. Aqui viveu uma família muito unida, muito alegre, muitas crianças, com um pai carinhoso, uma mãe muito alegre. Era uma casa sempre muito cheia de gente. Sempre tinha um amigo, almoços de fim de semana com açaí, unha de caranguejo e frango assado, que meu pai adorava, e algum bolinho, um doce árabe”.
A festa de 15 anos de Fátima foi na casa. “Foi uma festa muito bonita, com as mesas no quintal. Também casei aqui. Minha irmã mais nova, Eliane, nasceu aqui…”
Imóvel passou por poucas alterações
A casa, em três pavimentos, e tombada em 2012 pelo Iphan-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional dentro do conjunto do Centro Histórico de Belém, sofreu poucas alterações, diz Fátima, com a implantação de um lavabo, e o isolamento de uma escada de acesso ao quintal, que foi transformado em outro ambiente.
“E onde era a copa, o atual proprietário fez um escritório; a cozinha permaneceu igual. A entrada, a escada ficaram iguais também. Foram trocadas as janelas, que eram de madeira e foi permitido que ele colocasse blindex”, diz Fátima.
No primeiro piso, onde está a loja, havia antes a área de estar e a cozinha. No segundo piso, hoje estão o escritório de Fátima e um pequeno spa onde ela promove experiências de estética e wellness com profissionais parceiros e os produtos da marca. Naquela época, era onde ficavam os quartos dos pais, das meninas e meninos.
“O porão era plenamente habitável, com boa altura e, como a gente não precisava guardar carro em garagem – o carro ficava na rua -, ali era uma área de lazer. A gente usava muito o porão, brincava, conversava, estudava lá, e era onde tinha o quarto das pessoas que trabalhavam conosco. Eu não me lembro de violência. A gente ficava lá até 2, 3 da manhã, com a porta aberta, sem ninguém incomodar. A rua era muito tranquila”, conta Fátima.
Vizinhança tranquila e com vivência comunitária
A empresária lembra que, nessa época, a Campina era ocupada por muitas famílias e tinha uma comunidade bem integrada.
“Era muito tranquilo morar aqui. O comércio sempre foi para o lado de lá da Presidente Vargas. Deste lado, eram escolas, residências, eram muitas famílias de origem portuguesa, italianas também. Eu gostava muito de ficar em casa, de ler, mas minhas irmãs menores e meus irmãos tinham muito contato com a vizinhança”, diz Fátima.
A vida da família se estendia à Praça da República, onde os irmãos menores brincavam, e onde, em frente, ela aproveitava o Olympia e o Grande Hotel, onde hoje funciona o hotel Princesa Louçã. “Era lindo, com as mesas do lado de fora, onde papai me concedia um lanche, quase sempre um pão com queijo e um guaraná”, conta.
Ela relembra também que havia o futebol da rua 28 de setembro, com a Manoel Barata. “Jogavam na rua, onde o trânsito era tranquilo. Tinha patinetes, e era muito limpa a cidade. Não tinha essa quantidade de camelôs. Sempre tinha uma tacacazeira aqui na esquina, onde às vezes eu almoçava um tacacá, voltando do colégio Santo Antônio, antes de seguir para casa.”
Outra memória é de quando a área abrigava lojas de produtos finos, antes da chegada dos shopping centers, como as sapatarias Leão de Ouro, Batista Campos, Carrapatoso. Ou da Bon Marché, “uma loja de tecidos muito boa, com tecidos maravilhosos”, a Ouvidor, e a Paris N’América, assim como o Central Hotel, “onde tinha um bom restaurante”.
História que agrega valor à marca
Hoje, ela diz que estar de volta à Campina, oferece vantagens do ponto de vista logístico. “Eu tenho parceria com o Laboratório São Lucas [localizado na rua Padre Prudêncio], onde eu produzo os meus produtos, com os meus equipamentos, meu pessoal, mas produzo lá, que tem uma área maior”, diz Fátima.
Embora, a empresária não tenha estabelecido a área do centro histórico como uma condição, diz que estar lá é diferente de funcionar em outro bairro. “Faz muita diferença para a nossa marca estar aqui. Mesmo sem considerar o fato de termos morado aqui, nós, paraenses, estamos tomando consciência de que temos uma história que deve ser preservada, deve ser retomada. Vide as ações do Circular”, ressalta.
Fátima não é contra “os devidos ajustes da evolução, do desenvolvimento, mas está se resgatando [o bairro] com esses movimentos. Você anda aqui na Frei Gil e começa a ver abrirem alguns pontos. Do lado de lá, estão trabalhando as ruas do comércio”, relata.
A empresária é otimista em relação a esse processo de retomada do centro, que ela enxerga movido pelo sentimento de pertencimento.
“O mundo inteiro faz isso, então por que não fazemos? Sou otimista, porque acho que temos uma história muito forte para abandonar. A vida inteira se cobrou a prefeitura, o governo. Hoje estou vendo as pessoas realizando e o governo tendo que ir atrás. A sociedade se colocando, que é o necessário. Como por exemplo, colocar um ponto comercial onde você tem história.”
Neste domingo, na 63ª edição do Circular
Para quem quiser conhecer a casa por dentro, além da loja, haverá nova oportunidade de visita-la. A Chamma da Amazônia estará aberta à visitação, neste domingo, 18 de outubro, na 63ª edição do Circular Campina Cidade Velha.
Horário: 9h00 às 13h
Endereço: R. 28 de Setembro, 267 – entre Av. Presidente Vargas e Frei Gil de Vila Nova.
Confira a programação completa da 63ª edição: Aqui