Arte em defesa do patrimônio

Este ano, o Auto do Círio realiza seu 32º cortejo cênico pelas ruas da Cidade Velha. Cerca de 500 artistas-devotos apresentam, nesta sexta-feira, 9, um espetáculo que agrega dança, teatro, música, performance e artes visuais, em um manifesto público de reverência a Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses. A concentração inicia às 18h, na Praça do Carmo.

Nesse teatro tão democrático que é a rua, aberto a todos os públicos, o Auto do Círio segue pelas ruas do centro, com paradas para atos cênicos em frente à Catedral Metropolitana e ao Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP), até o Museu do Estado do Pará, no Palácio Lauro Sodré, em frente à Praça Dom Pedro II, onde faz sua apoteose.

A atriz Dira Paes, embaixadora do Auto este ano, estará presente para receber uma homenagem. Outra reverência nesse encerramento será à professora emérita da UFPA, atriz, diretora e ativista antirracista Zélia Amador de Deus, uma das idealizadoras do Auto do Círio, que faleceu em 8 de setembro deste ano, aos 74 anos.

“Zélia Amador de Deus está presente na própria concepção desta edição. Recuperamos a proposta inicial pensada por ela, atualizando-a para o presente. Teremos uma ala em sua homenagem, além de um momento muito especial com a sua família no palco final”, adianta a diretora-geral do Auto do Círio 2026, Inês Ribeiro.

Auto do Círio. Foto: Valério Silveira

Maria, salvai e guardai nosso patrimônio

Desenvolvido desde a sua criação como um “Ato de Defesa do Patrimônio Cultural e da Poética da Amazônia”, como destacam seus organizadores, este ano o Auto reverencia Nossa Senhora de Nazaré a partir do tema “Maria, Salvai e Guardai o nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé”. Como destaca a professora Inês Ribeiro, a relação com o patrimônio e com o território do Centro Histórico de Belém está na definição do Auto enquanto manifestação cultural.

“O cortejo transforma as ruas do Centro Histórico em espaço de arte, memória, fé e resistência. O público encontrará uma grande manifestação de Arte Pública, com a participação de artistas-devotos de Belém e de outros municípios, reunindo diferentes vozes, corpos, expressões e cores da nossa terra”, diz Inês.

“A proposta é ocupar poeticamente o Centro Histórico e chamar a atenção para a necessidade urgente de preservar o nosso patrimônio material e imaterial. O Auto transforma as ruas em palco e reafirma que a cultura é um direito humano fundamental”, completa a diretora.

Performance em cortejo. Foto: Nádia Borborema

Defesa do patrimônio, um papel de toda a sociedade

Segundo Inês Ribeiro, a ideia do espetáculo é convocar a sociedade como um todo a se manifestar em defesa dessa memória como fundamento para um futuro em que não deixemos de estar conectados à nossa essência enquanto amazônidas e belenenses.

“O Auto nos permite ocupar a cidade, reafirmar nossas histórias e lembrar que preservar o patrimônio é preservar quem somos”, destaca Inês Ribeiro.

A ideia que está na gênese do Auto traz o sentido da união coletiva para a resolução dos problemas do território, em uma cocriação a partir das nossas próprias experiências e potências.

“A principal mensagem é que ‘salvar e guardar’ não é um pedido passivo, mas um compromisso ativo com a salvaguarda da nossa identidade.”

Diversidade e arte. Foto: Nádia Borborema

Um pouco de história

O Auto do Círio surgiu em 1993, criado por professores e artistas ligados à Universidade Federal do Pará, com a ideia de agregar à agenda do Círio uma homenagem artística a Nossa Senhora de Nazaré.

Além de Zélia Amador de Deus, outro nome ligado ao teatro, a atriz e doutora em Arte Margareth Refkalefsky – que era ligada ao então Núcleo de Artes da UFPA, hoje transformado em Instituto de Ciências das Artes – participou ativamente de sua criação, que envolveu também a Escola de Teatro e Dança da UFPA e o diretor teatral Amir Haddad.

O Auto se estabeleceu como um projeto de extensão da UFPA, uma manifestação de Arte Pública pelas ruas do Centro Histórico de Belém, sempre aberta à participação da comunidade.

Ao longo dos anos, além de Amir Haddad, nomes como Miguel Santa Brígida e Tarik Coelho passaram pela direção do Auto, que foi também incorporando novos grupos e manifestações culturais, mantendo seu tradicional cortejo pelas ruas do centro sempre na sexta-feira que antecede a procissão do Círio.

Desde 2004, o Auto também é reconhecido, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), como patrimônio cultural imaterial associado ao Círio de Nazaré. Uma tradição com a qual o Auto se mantém comprometido:

“Queremos lembrar que proteger o patrimônio é também proteger as histórias, as tradições, a fé e as manifestações culturais que constituem a identidade amazônica paraense. Nossa fé e nossa memória precisam permanecer vivas e ocupar as ruas da cidade”, convoca a diretora-geral do Auto do Círio 2026.

Reportagem: Aline Monteiro | Edição: Luciana Medeiros | Foto?Capa: Alexandre de Moraes
Foto: Tereeza Maciel

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