A falta de água: rotina de quem vive no centro histórico

Moradores e empreendedores expõem as dificuldades diárias de quem vive nos bairros do Centro Histórico de Belém. Quais os problemas enfrentados em um território que vem sendo ocupado há quatro séculos, após o impacto do crescimento da população, do trânsito e das mudanças na rotina e nas necessidades de vida?

Pensar o desenvolvimento sustentável de centros históricos de cidades como Belém tem sido um desafio para urbanistas, sociólogos e ambientalistas, mas especialmente para quem habita e vivencia esses lugares no dia a dia.

Empreendedor criativo na Cidade Velha, onde mantém o Espaço Cultural Candeeiro, nas proximidades da Praça do Carmo, Natan Garcia diz que a reclamação sobre o abastecimento é uma constante nas trocas de mensagens entre os parceiros da Rede Circular.

“Eu tive muitos problemas no final do ano passado e início deste ano. Fiz muitas reclamações na concessionária, entrava no chat, mandava mensagem lá no Instagram deles, entrava no WhatsApp. Sempre tinha mensagem assim: ‘estamos fazendo uma manutenção corretiva’, ‘manutenção emergencial’. Teve situação em que demorou até 48 horas para retornar”, relata.

No último mês, as interrupções cessaram, mas a água continua não chegando a todas as torneiras do imóvel. “No porão, onde funciona o Candeeiro, até chega, mas não sobe para a parte de cima da casa, onde eu moro. É uma questão recorrente, essa da falta de força da água”.

Já na Campina, onde vive há 25 anos e é representante ativa dos moradores do bairro, Joana Lima diz que o impasse no abastecimento de água é histórico, mas vem piorando. “Sempre foi irregular, mas piorou consideravelmente. Antes faltava mais à noite e alguns dias à tarde. Agora, todos os dias, no meu horário de saída para o trabalho, próximo do horário do almoço, sem aviso, falta água”, conta.

Joana Lima, com a fala no Fórum Circular – Foto: Aryanne Almeida

A irregularidade atrapalha a rotina doméstica e também a dos pequenos negócios, reflete: “Tenho criança em atividade escolar e trabalho, é muito difícil. Para quem trabalha com alimentação, nos pequenos restaurantes, fica um caos”.

Paula Petrucelli mora na travessa Frei Gil de Vila Nova, mesmo lugar onde mantém seu negócio, o Tapi-Óka, parceiro da Rede Circular. O final de 2025 foi problemático por conta da falta de água, apesar de a conta chegar todos os meses sem diminuição de valor, entre R$ 400 e R$ 500.

“Moro nessa casa antiga, com quatro idosas, de quem sou cuidadora, uma delas acamada e que precisa de mais cuidados de higiene. Ficar sem água foi um transtorno muito grande, chegamos a passar três dias sem água, tinha tia acamada, que ficou três dias sem banho, só com higiene com paninho. Tive que fechar a tapiocaria, inclusive, porque é impossível trabalhar com comida nessas condições”, conta, relatando que tem perdido clientes e dinheiro pela irregularidade de funcionamento do negócio.

A Casa Igá, que fica ao lado da Tapi-Óka, e também parceira da Rede Circular, foi afetada, conta Paula. “Chegamos a solicitar um caminhão-pipa. Tive que fazer uma confusão lá com no escritório da Águas do Pará, e levar outras pessoas da rua, porque no sistema deles nem aparecia que estávamos sem água”, relembra.

Pertencente à família de Paula há 103 anos, a casa tem uma cisterna no porão e uma caixa d’água instalada para abastecer os andares de cima, mas, sem pressão, a água não chega até lá.

“Veio um técnico aqui fazer uma medição depois que solicitamos o carro-pipa. Ele disse que a medida normal da pressão da água deveria ser 7, mas a medição deu 4,5. O técnico disse que não sabia por quê, mas que era baixa. E a água, quando volta, vem muito suja, marrom mesmo, e com cheiro ruim”.

Paula Petruchelli, da Tapi-Óka

Faltam respostas da concessionária

Joana Lima e Paula Petrucelli têm opiniões parecidas a respeito da concessionária do serviço de água e esgoto, a Águas do Pará, que assumiu a atividade em Belém e na região metropolitana em setembro de 2025: falta transparência nas informações, resposta efetiva aos problemas e melhor atendimento ao consumidor.

“Minha expectativa, primeiro, é que eles expliquem o real motivo da irregularidade, ou da incapacidade, no momento de prestar esse serviço. Segundo, melhoria nos atendimentos virtual e presencial e nas condições gerais de prestação de um serviço tão importante como o abastecimento de água”, diz Joana.

Paula também fala de respeito na relação com os consumidores: “Além de avisar com antecedência se for ter algum tipo de manutenção, deem assistência para abastecer as casas que têm uma necessidade maior: casas com idosos, pessoas com deficiência, empreendimentos. As pessoas precisam ser respeitadas, é um serviço que está sendo pago”.

A Águas do Pará foi procurada pela reportagem para comentar, mas não houve resposta até o momento desta publicação.

Texto: Aline Monteiro – Edição: Luciana Medeiros
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