Música: um patrimônio da Amazônia

“De Belém se vê a imensidão! / Amazônia, mãe, mulher, nação / Sim, há prazo pra preservação / Dura o tempo da flor do jambu / O futuro vai abrir as mãos /

Feito quem apanha um cupu / Para receber com gratidão / A semente desse ventre-açu”

Interpretada por Patrícia Bastos no álbum Te Dou um Norte, de Manoel Cordeiro, “Floresta em Pé” abriu o show do músico na 62ª edição do Circular Campina, no primeiro domingo de agosto.

A letra sintetiza o que o músico, produtor e pesquisador musical tem repetido com muita frequência, conectando-se ao que chama de Manifesto da Música Brasileira feita na Amazônia.

“O mundo precisa olhar para a Amazônia e para a nossa cultura. Essa cultura precisa ser entendida pelo planeta. Nossa música tem o entendimento do que é ser sustentável”, disse Cordeiro, dias antes da apresentação.

Com mais de 50 anos de uma carreira cujo legado já é considerado, por lei, patrimônio imaterial do Pará, Manoel Cordeiro esteve no palco da Praça do Carmo, diante de um público ansioso para dançar aos ritmos amazônico-caribenhos.

“Seu Manoel é referência máxima. É impressionante a conexão que ele tem com o instrumento. A gente está aqui a uma hora do show dele, e ele está ali, com a guitarra na mão, não desgruda. E é incrível, porque a gente vê isso traduzido no palco”, disse Sebastião, guitarrista da Big Band DBL.

Manoel Cordeiro. Foto: Cláudio Ferreira

Guitarrada e carimbó como fontes

Sebastião refletiu sobre como essa música nos conecta à nossa identidade amazônica: “Momentos como esse fazem a gente se aproximar das nossas raízes, e esse encontro é muito importante. Vejo que as bandas atuais vão beber um pouco nessa fonte. É muito bom ouvir esse batuque, essa guitarrada”, contou, partindo também da experiência nos palcos com a DBL.

“A gente brincava que tocava de Stevie Wonder a Joelma, de Backstreet Boys à guitarrada, e hoje a gente prioriza blocos de guitarrada no meio dos nossos shows, porque a gente sabe que o povo vem junto. E quanto mais eventos como o Circular existirem para fortalecer a conexão das pessoas com os nossos ritmos, mais essa resposta nos palcos vai existir”, completa.

O percussionista Ricardo Silva se apresentou na praça com seu Bendito Carimbó, mas também esperava para ver Manoel Cordeiro. “Ele é um mestre, com uma longa história na música paraense.”

Junto a seu grupo, Ricardo disse ter a preocupação de perpetuar o carimbó raiz e a cultura popular paraense. E concordou com Cordeiro que essa música precisa ser vista como um patrimônio brasileiro, com seus mestres sempre lembrados.

“Essa energia vibrante que temos, enquanto paraenses, é que queremos levar a outros estados e ao mundo. Nossas referências são os mestres, o saudoso Lucindo, mestre Pelé, mestre Damasceno, grande mestre Luiz Goiaba, saudoso Chico Braga, Verequete e tantos outros. E com o carimbó que fala da vida do pescador, de quem trabalha na lavoura, do dia a dia”, destacou.

O músico, produtor e pesquisador musical Eduardo Barbosa saudou a importância de celebrar artistas como Cordeiro. “Ver os mestres é histórico. Eles são os fundadores de um gênero e de uma identidade sonora muito ímpar, principalmente Manoel Cordeiro”, disse.

Participação do Clube da Guitarrada. Foto: Cláudio Ferreira

“Vivemos um momento em que o povo começa a entender a música paraense como parte da identidade dele, essa cultura musical que é muito particular, que atravessa a América Latina e o Caribe. É algo muito peculiar no território nacional, por conta das fronteiras geográficas. O isolamento, esse contexto todo tornou Belém o epicentro de uma música muito particular no país”, analisou.

“E é até difícil o resto do país entender, porque são muitas diferenças: é a cúmbia, é o zouk, o merengue, o cadence-lypso, uma paleta sonora que não tem em outro lugar”, completou o pesquisador.

Para Barbosa, isso tem se refletido também no mercado da música. “A gente começa a vislumbrar que, em parte da população, esse olhar tem mudado: tem configurado uma noção de que o que há aqui não deve nada ao que vem de fora, e tem levado a uma valorização maior dos artistas locais e seus protagonismos.”

No Circular, a música brasileira feita na Amazônia, o que realmente importa, não marca ausência. E, na próxima edição, as atrações confirmadas são o grupo Cipoada Sucupira, de Ponta de Pedras, e Mestre Solano. Aguardem!

Reportagem: Aline Monteiro | Edição: Luciana Medeiros | Fotos: Cláudio Ferreira
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