Carnaval com chuva, suor e cerveja

Praça do Carmo recebeu brincantes na terça-feira gorda e movimentou comércio na Cidade Velha. Nem a chuva que caiu durante a terça-feira gorda afastou brincantes da Praça do Carmo.

Neste dia 17 de fevereiro, depois da passagem do bloco Filhos de Glande pelas ruas do bairro da Cidade Velha, que culminou com um baile à fantasia na Casa Apoena, foi a vez do grupo Fé no Batuque e dos coletivos Samba do Mercado e Xibé da Galera continuarem a folia na praça, aberta a todos os públicos.

À noite, por volta das 19h, enquanto o Fé no Batuque mandava sambas clássicos, vendedores ambulantes e bares no entorno aproveitavam para faturar. Aliás, o formato da festa chama atenção e quem explica é Laura Fabiane Conceição, uma das comerciantes que integram a Associação dos Ambulantes Culturais do Centro Histórico de Belém (@_acbel), formada por 15 ambulantes que trabalham juntos em eventos.

“Muitos se mantêm disso. A gente se junta e cada um paga uma cota pela cerveja e pela comida que é vendida. Esse valor arrecadado é o que a gente usa para custear o evento, pagar palco, cantores, estrutura, grade e segurança, para manter a proteção dos foliões e evitar vendedores terceiros. O fundador dessa festa é o Batuque do Mercado. Já o Xibé e o Fé no Batuque são convidados nossos”, disse.

Bom para a diversão, bom para o comércio

Moradora da Cremação, Laura estava satisfeita com as vendas de batata frita e salgados: “Teve mais movimento do que a gente esperava. Vale muito a pena tanto para nós, trabalhadores, quanto para os moradores, porque o samba traz alegria, fortalece as origens de todos”, avaliou, aproveitando para dançar entre uma venda e outra.

Já, contadora Ana Paula Souto, moradora de um imóvel histórico na praça, convidou a bióloga Samara Pinheiro e a irmã dela, a enfermeira Daniele Pinheiro, amigas de infância, para curtir o carnaval de camarote. “A família está aqui desde 1945. É uma casa de herança, era do meu avô, sempre teve moradores da minha família, e hoje eu moro aqui”, diz Ana Paula.

Ela lembra dos afoxés que frequentou na infância pelo bairro, da chegada das festas indoor e agora aprecia o formato mais tranquilo dessa retomada da folia na área, com a comodidade da festa à sua porta, sem abrir mão da estrutura, com comidinhas e banheiro.

Falta de banheiros, um entrave recorrente

A falta de banheiros, a propósito, é um problema citado por Ana Paula. Isso, de acordo com ela, “deixa a praça em más condições”. É também uma reclamação entre os brincantes: havia apenas quatro banheiros químicos para atender o evento nesta terça-feira.

“Esse evento está organizado, mas são poucos banheiros. Se não estivesse chovendo e houvesse mais gente, não sei se funcionaria bem”, disse a advogada Mônica Oliveira, moradora do bairro do Marco.

Para ela, o atrativo foi acompanhar o cortejo pela Cidade Velha. “É interessante porque tem que ter essa multiplicidade do carnaval. Não só a avenida, os carnavais de salão que Belém tinha, mas essa retomada do carnaval de rua, que a pandemia deu uma quebrada e agora a gente está compreendendo melhor como fazer esse carnaval na chuva.”

Carnaval com clima aconchegante

A publicitária Kamila Daguer e a corretora de imóveis Fádia Leal vestiram a fantasia para aproveitar a festa. Ambas moradoras do bairro do Marco, falaram do clima agradável da folia no centro histórico. “É mais aconchegante, e a gente não precisa marcar com ninguém, acaba encontrando os amigos aqui”, disse Fádia.

O que foi contratempo para alguns virou oportunidade para a comerciante Ione Casseb, do bar Nosso Recanto, que aditivou as vendas com os brincantes que buscavam o bar em busca de banheiro. Quem consumia tinha entrada livre, e para os demais foi cobrada uma taxa de R$ 2 pelo uso. “E, graças a Deus, todos os salgados venderam muito bem: a freguesia é boa”, disse.

Parceiro da Rede Circular, o bar funciona na praça desde 1977, mesmo tempo em que Ione mora no local, nos altos do comércio. Ela lembra com nostalgia do carnaval de rua antigo no bairro, que aproveitava ao lado do marido Salomão, falecido há sete anos (“ele adorava”).

Texto e fotos: Aline Monteiro / Edição: Luciana Medeiros

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